Capítulo 3: Lembranças e Sombras

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Caminhamos pela floresta em silêncio, a chuva ainda caindo levemente sobre nós. Nicolae segue à frente, guiando-me para longe da estrada e em direção a um destino que ele parece conhecer bem. Minha mente está confusa, mas o controle sobre minha fome está, por enquanto, sob controle. Ele olha para trás de vez em quando, como se quisesse garantir que eu ainda o seguisse.

Finalmente, depois de o que parece uma eternidade, chegamos a uma pequena cabana escondida entre as árvores. A casa é simples, mas parece acolhedora em meio à escuridão da floresta.

— Entre — diz Nicolae, abrindo a porta e esperando que eu o siga.

Hesitante, dou alguns passos para dentro, observando o ambiente. A cabana é pequena, mas arrumada. O cheiro de madeira e algo familiar preenche o ar. Nicolae coloca o cervo sobre uma mesa de madeira e começa a extrair o sangue com precisão, enchendo um pequeno frasco. Quando termina, me oferece o recipiente.

— Tome, vai ajudar a controlar sua fome — diz ele, com calma.

Seguro o frasco com as mãos trêmulas e, por um breve momento, hesito. Mas a fome é mais forte, e bebo o sangue de um só gole. A sensação de alívio imediato toma conta de mim. Nicolae observa em silêncio, sua expressão impassível.

— Melhor? — ele pergunta.

— Sim... — murmuro, tentando recuperar o controle sobre meu corpo.

Antes que eu possa dizer mais alguma coisa, um som suave de choro corta o silêncio.

Viro-me em direção ao quarto adjacente, e lá está ela.

Uma menina, de cabelos claros e pele delicada, deitada em um berço improvisado. Ela chora baixinho, como se sentisse a presença de estranhos, mas seus olhos logo encontram os de Nicolae, e seu rosto relaxa.

— Essa é Emily — diz Nicolae com a voz baixa, enquanto se aproxima do berço. Ele a pega no colo com cuidado, como se ela fosse o tesouro mais precioso do mundo.

Minha mente vacila por um momento. Eu não esperava isso. Nicolae... com uma criança humana?

— Ela é sua... filha? — pergunto, sem conseguir esconder minha surpresa.

Ele balança a cabeça, ainda concentrado na menina em seus braços.

— Não de sangue — ele responde calmamente. — Mas sim, eu cuido dela como se fosse minha. Ela perdeu a mãe muito cedo, e desde então, sou eu que a protejo.

Algo dentro de mim se mexe, uma pontada de algo que não reconheço de imediato. Olho para a menina em seus braços, humana, frágil, e tento entender como Nicolae, um vampiro, pode ter assumido esse papel. É como se a imagem do predador que conheci no passado não se encaixasse com o homem que está diante de mim agora, cuidando de uma criança.

— E o que você pretende com ela? — pergunto, ainda confusa. — Você sabe que o mundo em que vivemos não é seguro para humanos, muito menos para uma criança como ela.

Ele suspira, sentando-se em uma cadeira perto da lareira enquanto continua embalando Emily.

— Eu sei — responde Nicolae, os olhos fixos no fogo. — Mas farei o que for preciso para mantê-la a salvo. Ela é tudo o que me resta de alguém que um dia amei.

Suas palavras me pegam de surpresa. Não consigo imaginar Nicolae em um cenário onde o amor fosse algo possível. A imagem dele como um assassino frio e calculista ainda está fresca em minha mente. Mas então, me lembro de algo que parece distante, enterrado.

Nathaniel.

A lembrança de Nathaniel, o rei que uma vez jurei proteger, me invade como uma onda repentina. Nós dois juntos na corte, em tempos muito diferentes, muito mais perigosos. Eu o amava, mesmo sabendo que sua coroa o tornava teimoso, que suas ambições eram maiores do que ele podia sustentar. E no final, eu falhei. Eu falhei com ele quando mais precisava de mim.

Flashbacks me envolvem, trazendo imagens de noites à luz de velas, onde o calor de sua presença me cercava. Aquele olhar profundo e azul, os sorrisos cúmplices. Ele costumava se aproximar de mim, quase sussurrando promessas que faziam meu coração acelerar.

— Aria — ele murmurou em uma noite especial, quando estávamos sozinhos no jardim do palácio. A lua cheia iluminava seu rosto, e a brisa suave trazia o perfume das flores. — Você é a única que me entende.

Naquele momento, não consegui resistir. Meus lábios encontraram os dele em um beijo suave, cheio de promessas e desejos não ditos. O toque era elétrico, como se o mundo ao nosso redor tivesse desaparecido, deixando apenas nós dois e a certeza de que o que sentíamos era real. Mas a realidade sempre estava à espreita, e as obrigações do reino logo nos separariam.

A lembrança me faz hesitar. O amor que eu tinha por Nathaniel se mistura com o medo do que aconteceu. O ataque. O ataque de Nicolae.

— Você... naquela noite — começo a dizer, as memórias voltando como estilhaços. — Você tentou matar Nathaniel. E a mim.

Nicolae fecha os olhos, suas feições endurecendo.

— Eu não me lembro — ele murmura, quase em dor. — Mas acredito em você. Fui controlado naquela época. Um veneno tomou conta de mim, e fui enviado para destruir. Fui uma arma. Mas não era eu, Aria. Não era quem eu sou agora.

O silêncio entre nós pesa, e a memória de Nathaniel, do amor que eu tinha por ele, permanece dolorosamente presente.

— Ele confiava em mim — digo, minha voz trêmula. — E eu falhei com ele.

Nicolae olha para mim, algo em seus olhos suavizando por um momento.

— Talvez você tenha falhado com ele... mas não falhou com quem você é. Você sobreviveu. E isso é algo.

Por um momento, deixo as palavras dele afundarem em mim. Talvez ele esteja certo. Sobreviver, apesar de tudo, é o que importa agora. Mas o passado ainda me prende, e não posso esquecer o que aconteceu naquela noite. Nicolae pode não lembrar, mas eu me lembro. E essa memória não me deixará tão cedo.

Então, um movimento no berço chama nossa atenção. Emily balança os braços, abrindo os olhos, e sorri ao ver o pai. O olhar dela é puro e inocente, e por um breve momento, o peso de nossas histórias parece desaparecer. Vejo em Nicolae a ternura que não imaginava que ele possuía.

— Olá, pequena — ele diz, com um sorriso suave. A imagem é tão contrastante com o homem que conheci no passado. O carinho dele por ela parece ser genuíno.

Meu coração se aperta com a visão. A vida ainda persiste, mesmo entre as sombras e as lembranças de dor.

— Eu sinto falta dele — digo, a dor da perda se misturando com as lembranças do nosso amor. — Nathaniel. Eu falhei em protegê-lo.

Nicolae parece ponderar, seu olhar se perdendo nas chamas da lareira. Ele deve entender o que significa amar alguém e perder esse amor.

— Você não é a única a carregar um fardo, Aria. — A voz dele é grave, mas compreensiva. — Mas talvez, juntos, possamos encontrar um caminho.

A chuva continua a cair lá fora, mas dentro da cabana, a pequena Emily traz um raio de esperança. O passado pode ter sido sombrio, mas talvez, apenas talvez, eu possa encontrar um futuro ao lado de pessoas que ainda se importam.

Beijo de VeludoOnde histórias criam vida. Descubra agora