Capítulo 9: Sombras do Passado

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Conforme me recosto na cama luxuosa, a exaustão toma conta de mim, e fecho os olhos, permitindo que a escuridão me envolva. O suave cheiro da seda e das velas me embriaga, e, enquanto meu corpo relaxa, minha mente começa a vagar por um labirinto de lembranças esquecidas.

Sinto-me sendo puxada para longe, para um tempo em que eu era uma jovem sonhadora, presa em uma realidade miserável. Visualizo uma sala modesta, com móveis desgastados e paredes descascadas, onde o cheiro de mofo permeia o ar. Eu tinha apenas 16 anos, uma idade em que muitos já haviam encontrado seus pares, mas, para mim, era considerada velha, pois ainda não havia casado.

— Por que você questiona? — alguém me disse uma vez, com desprezo. — Ninguém quer uma mulher que questiona.

A sensação de impotência me envolve, e vejo minha imagem refletida em um espelho empoeirado. Uma beleza tímida, mas não nobre o suficiente. Prometida a um velho viúvo que já tivera quatro esposas jovens, todas mortas em circunstâncias estranhas, meu coração se enche de desespero.

Com relutância, aceitei o que me foi imposto. A cerimônia foi rápida, e em breve me vi presa a um homem que não via valor em mim além do que poderia gerar. E, embora minha vida estivesse prestes a mudar, a realidade não era uma promessa de felicidade, mas uma sentença.

As noites eram intermináveis. Fui obrigada a suportar a brutalidade dele, e o que deveria ser amor se transformou em um pesadelo. Ele era mais forte, mais poderoso. A resistência não era uma opção; eu estava presa em uma teia de medo e submissão.

Os anos passaram, e a frustração do meu marido se tornou palpável. Ele me espancava, e sua dúvida sobre minha fertilidade o tornava ainda mais cruel. Um médico foi chamado, e ele examinou meu corpo, dando a ele a certeza de que eu estava saudável.

— Continue tomando os chás, e tentem mais uma vez — foi tudo o que o médico disse, mas ele não sabia da verdade. Não havia alegria em mim, apenas uma certeza de que nunca teria filhos para trazer ao mundo.

Em um canto escuro de minha mente, guardava um segredo. Os abortos eram frequentes, um reflexo da minha resistência a tudo o que ele representava. Com o passar do tempo, a desconfiança dele cresceu, e eu me tornei um alvo fácil de sua raiva.

Certa noite, ele me pegou no ato, seus olhos brilhando com a fúria. A força com que me atingiu me deixou desacordada, e quando acordei, o desespero tomou conta de mim.

Escapei para a floresta, mas não havia alívio. Estava machucada e infeliz, com a certeza de que não haveria alegria em minha vida. A solidão me envolveu como um manto pesado, e decidi que só esperaria a morte.

A noite fria me cercou, e enquanto a escuridão me engolia, uma presença se aproximou. Um homem, de cabelos loiros que brilhavam sob a luz da lua, se debruçou sobre mim. Seu olhar era intenso e penetrante, e, ao cheirar meu sangue, senti um frio percorrer minha espinha.

— Você está tão ferida — ele disse, a voz suave e melodiosa, mas cheia de uma urgência que me fez sentir vulnerável.

Naquele momento, algo dentro de mim despertou. Havia esperança em seus olhos, um vislumbre de liberdade. Eu não queria morrer ali, sozinha e desolada.

Como uma sombra, a lembrança do passado se dissipou, e eu abri os olhos novamente, agora no conforto dos aposentos do clã. A realidade me atingiu como um golpe, e eu soube que precisava enfrentar o que havia sido.

Com as lembranças ainda frescas, uma nova determinação começou a se formar dentro de mim. O passado pode ter moldado quem sou, mas não vai definir meu futuro. O que está por vir é uma chance de lutar, e eu não irei me deixar ser derrotada novamente.

Beijo de VeludoOnde histórias criam vida. Descubra agora