Reação.

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Tamaya

Chovia muito, mais uma vez.

Eu já tinha perdido a conta de quantos dias a chuva caía incessantemente. Tornou-se deprimente olhar para o céu cinzento e as gotas de chuva que não paravam, me mantendo mais uma semana em casa, sem vontade alguma de sair. Embora soubesse que precisava, algo dentro de mim não respondia, permanecia imóvel, deitada na cama, sob as cobertas, encarando o teto sem desejo de agir.

Estava sendo inútil, obviamente, era nítido que essa minha atitude não resolveria nada, mas não podia esquecer a imagem que via de Olívia jogada no chão, enquanto escorria sangue do seu corpo, após levar um tiro no meio da cabeça e no peito, seus olhos abertos, sentindo a dor que lhe agonizava. Foi como um filme de terror, o que de fato perturbava as minhas noites mal dormidas. Tudo estava sendo um porre de aguentar.

Deitei-me de bruços na cama, ajeitando um travesseiro entre minhas pernas e repousando a cabeça no outro. Suspirei, tomada por um cansaço inexplicável, pois já se passavam quase duas semanas nesse estado de letargia, sem quase nunca deixar o quarto, vencida pela falta de ânimo.

Não queria ser um estorvo para Lis e Margot, mas elas insistiram para que eu ficasse em suas casas, foi impossível sequer discutir, pelo simples fato de não poder relutar contra algo assim, aqui era o melhor lugar que eu poderia estar, ao lado das minhas mães, das mulheres que tanto me amavam e me cuidavam com todo o carinho do mundo.

— Maya? — O som suave da voz me fez virar o corpo, voltando a mirar em direção à porta.

Suavizei meu semblante ao notar quem estava ali, me esperando para que houvesse alguma reação. Mas a única coisa que consegui foi soltar um riso pequeno, voltando a deitar minha cabeça no travesseiro confortável.

Ouço barulho de alguns passos se acercarem e já sei qual será a frase a soltar ou a atitude a tomar. As mesmas de duas semanas seguidas, não que isso me irritasse, claro que não, até porque Esther apenas cuidava de mim, mas era complicado não ter reações e ver seu semblante frustrado por não conseguir o que tanto queria de mim. Reação. É isso que ela mais desejava. Sabia pelo simples fato de ouvi-la falar com minhas mães no corredor do quarto. Frustrante? Um pouco, pois me sentia um fardo que não queria que elas carregassem por minha culpa, mas não podia reagir, era como se tudo em mim tivesse paralisado e eu só pudesse viver de modo automático. Sem nenhuma emoção.

— Você poderia ao menos me responder — sussurrou ao sentar-se na cama e acariciar meu braço descoberto. — Vai fazer greve de silêncio até quando?

Engoli a saliva com lentidão, pois apesar de por dentro conseguir respondê-la, por fora as palavras não saíam. Respirei fundo, puxando a coberta mais um pouco, queria apenas me esconder do mundo embaixo das cobertas, mas sabia que isso era infantil, a vida precisava seguir e eu precisava tomar uma atitude e sair dessa cama, até porque isso não resolveria nenhum dos meus problemas.

Esther continuou a acariciar meu braço, se aproximou do meu corpo e deixou um beijo suave na minha testa, meus olhos seguiam fixos na parede, sem sequer mostrar algum tipo de sentimento ou interesse, mesmo por dentro estando querendo com força o seu abraço apertado, daqueles que você mal conseguia respirar.

Senti as lágrimas chegarem, mas não choraria, até porque não resolveria, então deixei que elas voltassem goela abaixo.

O corpo de Esther inclinou para trás, retirando seu toque da minha pele, o que me causou uma falta de tato, pois queria que ela voltasse a me encher de carinhos suaves e beijos na cabeça, testa e lábios. Queria todos os beijos que ela quisesse me entregar, mas não tinha forças nem a pedir.

Odiosa fascinação [+18]Onde histórias criam vida. Descubra agora