Kristanus caminhou durante dias com as bruxas, Alfredo e os monstros de piche. Andaram por toda a parte da Floresta Mágica que fora destruída pelas Trevas, cercados de troncos de árvores enegrecidos e relva ressecada.
O dracônico sempre ia à frente, as asas abertas enquanto ele voava. Alfredo acompanhava seu mestre logo atrás, seguido pelas bruxas. As criaturas iam sem fazer perguntas, misturadas aos monstros de piche, os capuzes jogados sobre as faces feiosas.
Finalmente, após um bom tempo, o grupo começou a notar que a vegetação se alterava, tornando-se colorida e viva novamente.
À medida em que entravam em áreas ainda recheadas de energia positiva, viva e boa, o rosto de Kristanus ficou cheio de nojo, os olhos negros estampando o mais puro asco.
— Mal posso esperar para absorver o Cristal Ancião — disse ele a Alfredo, quando pararam durante o dia a fim de descansar e repor as energias. — Nada disso existirá mais.
Alfredo parou de comer sua sopa. Sentado com as costas num tronco, subitamente olhou para Kristanus.
— Senhor, detesto acabar com seus ânimos, mas...
— O que você tem a dizer que pode me desanimar, feiticeiro? Está com medo de lutar, de vencer os guardiões da floresta? Não seria a primeira vez que me surpreendo com a sua covardia.
— Não — disse Alfredo, sem tremer a voz. — Na verdade, eu estava mais preocupado com as bruxas. Aqui onde estamos, já posso perceber que seus poderes enfraquecem. Estão em pânico, querendo voltar; a energia do Cristal as repele.
— Então faça algo a respeito disso. — O rosto do dracônico queimou de ódio. — Permita que minhas aliadas lutem na Floresta Anciã. Os poderes delas me serão de grande serventia.
— Senhor, mesmo que eu esteja mais poderoso, não conheço nenhum feitiço que possa... — Ele parou de falar ao ver a expressão irada no rosto do amo, que cerrava os dentes, os fazendo ranger.
— Dê. Um. Jeito.
Engolindo em seco, Alfredo assentiu, baixando a cabeça em submissão. Então falou, rouco:
— C-claro, mestre.
— Bom — disse Kristanus, mostrando os dentes afiados. — Muito bom, lacaio, é assim que eu gosto!
Vários dias se passaram depois daquele, nos quais Alfredo refletiu profundamente sobre o que fazer. Sempre antes de dormir, ele pensava em inúmeros feitiços, mas nenhum parecia ser o adequado.
As bruxas iam ficando cada vez mais carrancudas e recurvadas, reclamando de uma claridade e de um calor que ninguém mais sentia. Era a força do Cristal Ancião, agredindo com sucesso aqueles terríveis seres das sombras.
Depois de mais um dia cansativo de marcha, ao se deitar nos galhos de uma árvore alta para dormir, Alfredo finalmente teve uma ideia.
Foi a lua cheia que o inspirou, brilhante e bela no céu, seus raios prateados penetrando as retinas do feiticeiro das trevas. Lua... símbolo da sombra e do amor, provocadora de paixões e sonhos. Por meio da força do astro, Alfredo chegou à conclusão sobre como resolver o problema.
No dia seguinte, falou brevemente com o mestre que tinha uma solução, e pediu-lhe que agrupasse as bruxas numa clareira.
Com o característico sorriso sádico no rosto, Kristanus seguiu a orientação, e pela tarde, todo o grupo de bruxas se reuniu na maior clareira que o dracônico conseguiu encontrar.
Elas reclamavam e apertavam as vistas.
— Maldito Cristal — diziam, esfregando a pele. — Está me causando uma coceira dos infernos!
— O que vão fazer com a gente neste lugar?
— Talvez nos matem. Estava achando o novo mestre muito irritado nos últimos dias!
Ouviram-se murmúrios de pânico.
— Quanta besteira! Se quisessem nos matar, já o teriam feito há muito tempo, é o que digo. Além do mais, por que teriam sido tão gentis conosco se não fôssemos úteis de alguma forma?
Ninguém a respondeu. Estavam todas paralisadas, olhando com as pálpebras erguidas a figura de Alfredo.
O feiticeiro vinha caminhando lentamente por uma trilha até a clareira. Mas ele não se encontrava sozinho. Os Famintos o seguiam, mais agitados e eufóricos que de costume.
As bruxas ficaram completamente caladas, aguardando que eles chegassem.
Alfredo por fim alcançou a clareira, ordenando aos Famintos que parassem. Os monstros obedeceram, e o feiticeiro das trevas ergueu os braços, sussurrando encantamentos obscuros.
As bruxas arregalaram os olhos, e muitas tentaram escapar, correndo para longe da clareira. Mas os Famintos se movimentaram, travando-lhes a saída, os dentes de piche aparecendo em rosnados assustadores.
Alfredo continuou recitando as magias. Suas mãos brilharam em cores azuladas, até que os Famintos saltaram sobre as pobres bruxas. Elas gritam de terror enquanto seus corpos se fundiam ao piche negro e denso que as encobriu... Foram completamente revestidas pelo material que compunha os Famintos, até que seus rostos desapareceram, substituídos por faces animalescas e asquerosas.
Alfredo parou de murmurar, olhando o exército de criaturas com um sorriso no rosto.
— Agora, são todos um só — disse ele. — E o Cristal Ancião não poderá mais afetar os seus corpos!
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OS DEFENSORES DA FLORESTA MÁGICA
FantasyPara proteger o Cristal Vital, Tiffo, Matilde e Leon têm que dar o seu melhor!