O som alto de uma respiração se fazia presente fazendo Felix sentir seu corpo vibrando, até mesmo as paredes pareciam tremer junto dele, quando finalmente o garoto moreno teve coragem de abrir seus olhos ele estava novamente naquele quarto, as mesmas paredes escuras o cercavam, o chão parecia de madeira cara demais para a época a província em que vivia e o ar do ambiente parecia estranhamente denso, mas não havia nada que pudesse fazer, estava paralisado enquanto levava seus olhos novamente a cama como fazia todas as vezes que ali estava.
Sua respiração se acelerou, seu pulmão parecia comportar mais ar do que sua capacidade habitual e podia jurar que isso que fazia sua respiração falhar, seu coração estava descompassado conforme a figura se tornava mais fácil de ver.
O mesmo homem estava deitado no quarto escuro em lençóis brancos, os fios escuros e cumpridos escorriam por seu rosto, com vestes claras perfeitamente encaixadas em seu corpo - que de alguma forma, Felix sabia não ser a cor certa para ele - dormia sobre a cama. Seu semblante, assim como todas as outras vezes que esteve ali, parecia calmo, mas dessa vez algo mudou.
Repentinamente os olhos do desconhecido se abriram, inicialmente, parecia confuso, mas não por muito tempo e então os gritos começaram atordoando Félix que levou as mãos aos ouvidos, mas aqueles gritos pareciam vir de dentro de sua mente.
Felix parou a mão sobre o coração se encolhendo contra o próprio corpo enquanto o desconhecido se debatia sobre a cama, as correntes pareciam o queimar mesmo que não houvesse nenhum dano ao seu físico visivelmente, o garoto se pôs contra a parede parecendo sentir o a dor do acorrentado, os gritos que o mesmo soltava pareciam ecoar e percorrer os seus ossos que tremiam junto as paredes que pareciam prestes a ceder.
O homem sobre a cama continuava a se debater e tentar se soltar, pareciam compartilhar da mesma agonia mesmo que Felix estivesse livre, seu corpo parecia querer se contorcer de agonia, ainda que não pudesse especificar nenhuma das sensações que o homem - provavelmente - sentia se encontrava desesperado para virar e correr dali ou ao menos ir até o moreno à sua frente e o ajudar, mas suas pernas continuavam teimando e não fazendo um único movimento tornando a visão mais assombrosa para si.
Até que finalmente o som assustadoramente alto das correntes se partindo o fez por fim sentir o ar saindo de forma lisa de seu pulmão gemendo pelo susto e alivio, o homem agora não mais acorrentado, parecida aliviado enquanto sorria de forma predatória soltando gargalhadas altas enquanto parecia recuperar aos poucos o fôlego perdido em sua batalha contra as amarras.
Confuso Felix apenas observava toda a cena enquanto assistia o moreno mais alto se sentar sobre a cama e focar seus olhos em si, se sentiu pequeno, sentiu seu corpo congelar conforme o canto dos lábios do desconhecido se inclinavam de forma assustadora para si, não demorou a ter sua atenção tomada por um grito vindo do outro lado da porta - que só havia reparado agora que existia - atrás de si.
Sentiu uma presença perto de si e quando finalmente voltou a atenção a cama onde o moreno deveria estar não o encontrou ali sua visão percorreu por todo o quarto até parar em um espelho que de inicio parecia completamente escuro, mas logo se clareou, Felix gritaria se pudesse, aquele reflexo não era seu.
Se sentou na cama ofegante, suando e puxando o ar para seus pulmões sentindo como se fosse morrer ali mesmo, passou as mãos tremulas pelos fios castanhos e longos que nunca fez questão de cortar, seus olhos varreram tudo a sua volta se certificando de estar em seu próprio quarto - Com toda certeza seu amigo havia o levado ali, mas pela xícara já fria de chá ao lado da cama, já havia ido embora a muito tempo. As paredes de madeira velha, moveis igualmente desgastados que geralmente o fazia se sentir mal pela pobreza que o assolava, mas ultimamente isso era o que o fazia respirar aliviado por saber que estava em seu lar, olhou pela janela vendo que já estava escuro ao lado de fora concluindo que perdeu o dia todo e novamente teve aquele pesadelo.
Tocou os pés de forma cruelmente vagarosa no chão sentindo o frio causar um choque em todo seu corpo que o fez se arrepiar por completo enquanto se forçava para ficar em pé ainda meio tonto, porém seu sono já havia se dissipado por completo, quando finalmente se pós a andar Felix evitou encarar o espelho ao lado da cama; tinha uma sensação esquisita de que veria algo que não era ele quando o olhasse.
Caminhou com calma para a porta de seu quarto que dava ao corredor e hesitou em pegar na maçaneta da porta, sentia que se abrisse encontraria aquele homem, o homem dos sonhos, bem ali. Parado. Observando. Sorrindo. Felix se assustou no momento em que jurou ouvir uma risada vir de trás de si, mas se esforçou para ignorar e finalmente abriu a porta vendo apenas o corredor escuro à espreita, o esperando; como deveria ser, mas sentiu como se não estivesse sozinho.
Fechou os olhos e umedeceu os próprios lábios logo se pondo a caminhar com os pés ainda tocando o frio chão de velhas tábuas, toda a casa se tornava muito fria no inverno graças a construção toda de madeira e sua localização ao lado da floresta próxima d mais a montanha o que apenas piorava a situação do garoto de dezoito anos.
Felix morava sozinho na casa herdada dos pais desde o dia em que seu pai repentinamente sumiu, o homem trabalhava como comerciante viajando de cidade a cidade, porém em um dos dias que saiu para seu trabalho simplesmente não retornou, os que trabalhavam com ele afirmaram que o homem nunca havia chego no trabalho aquele dia, e então todos acreditaram que o Sr.Lee apenas havia fugido de sua família, a mãe do menino lidou muito bem com isso e o criou com muita honra por muito, mas alguns anos atrás acabou sucumbindo a uma doença que pela falta de dinheiro não poderiam tratar.
O garoto caminhou com cuidado por todo o corredor, repentinamente sua casa parecia perigosa demais para si, quando chegou na cozinha de sua residência pegou pequenas tábuas acendendo o fogão o mínimo possível para não chamar atenção dos moradores de perto e os incomodar no meio da noite, colocou água em uma velha caneca e amassou folhas ali para preparar um chá quente.
Caminhou até o armário onde guardava as, poucas, comidas que tinha estocadas e pegou um biscoito que havia comprado na feira da vila de forma barata mordendo um pedaço enquanto deixava seus olhos vagarem pela cozinha parando os mesmo no fogo ardente do pequeno fogão de lenha, seus pensamentos mesmo que contra sua vontade se voltava aos sonhos.
Não se lembrava ao certo quando haviam começado os sonhos ou o porquê, quando tentava buscar em suas memórias, de alguma forma e como se sempre estivessem ali, mesmo antes pudesse lembrar de alguém outra coisa, eles estavam ali, tão claramente como agora, quando pequeno ele costumava se assustar e correr para os braços da mãe que, de forma acolhedora, o tomava no colo e ninava pelo resto da noite, mas era muito diferente de agora.
Se lembrava perfeitamente de ter perguntas rondando sua cabeça constantemente enquanto crescia e os sonhos permaneciam, e agora - para piorar sua situação - não possuía mais a mãe que o acalmava e o distraia durante a noite muitas vezes cantando ou lendo histórias até que Felix voltasse a adormecer e conseguisse se livrar dos pesadelos.
Mas já faziam quase uma semana que os sonhos com o homem havia se tornado mais frequentes e esse mesmo sonho se repetia, o homem se debatia e gritava de dor pelas correntes presas em torno de si. Felix começou a achar que não era nada além de paranoias e medos de sua cabeça, afinal, que perigo um sonho poderia fornecer? No fundo da mente, uma chata voz, insistia que poderiam haver muitos riscos, não sabia quem era, nunca havia visto aquele rosto, mesmo que parecesse muito familiar, e isso é o que particularmente mais o assustava o garoto naquele momento
O homem continuava o mesmo, no mesmo quarto, na mesma cama, mas ele nunca havia acordado antes, apenas permanecia dormindo de forma calma, rosto paciente e respiração tranquila, Felix se lembrava de inicialmente apenas perguntar a mãe quem era o homem que dormia e a mulher desviar com assuntos que o faziam adormecer, porém com o passar dos dias e a volta do homem adormecido o pequeno começou a temer que ele acordasse e agora, finalmente aquele ser misterioso havia aberto os olhos e se soltado. O que aconteceria agora que o homem de fios escuros e longos abriu os olhos? O que ele faria? O que Felix sonharia na próxima noite? Ele temia fechar os olhos novamente.
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Inevitable ending
FanfictionConta a história que a grande mãe possuía seis filhos, todos viviam bem cuidando de seus próprios elementos e interesses até que o sexto filho - nunca nomeado - iniciou a destruição e o ódio causando discórdia entre os humanos e deuses, como forma d...