A autora precisa de ajuda psicológica, meus caros leitores. 🥺
(...)
As horas iam se passando e o fim de tarde já se fazia presente. A mando do delegado, Silviane e Thaynara tiveram que ir embora, deixando a amiga delas ali naquele lugar horrível para se passar uma noite. Rafaela encolheu as pernas de modo que seus calcanhares estivessem sobre o banco de concreto, e nessa posição ficou por um bom tempo.
Em sua mente passava um misto das cenas que viu nas últimas horas e era difícil ignorar o desconforto da perda. A pessoa em questão nem era sua parente, mas nutria afeição e empatia por Carlinhos. Infelizmente não o veria mais.
Fechou os olhos, deixando que algumas lágrimas escapassem e molhassem suas bochechas. Sabia que não estava tão bem visualmente falando, mas não estava preocupada com isso. Não quando alguém perdeu a vida de forma tão violenta. Se ela estava com a aparência de alguém correto, como sua mãe fazia questão de impor, pouco lhe importava.
Diferente de Daniel, que ficou emotivo ao vê-la ali.
— Rafa?
Ao escutar a voz dele, abriu seus olhos. A primeira coisa que ele notou foi a raiva. Segundo, o cansaço. Os dois passaram horas na delegacia e ele pensou que ambos só queriam chegar em casa para descansar.
— O delegado liberou a gente. Posso te levar em casa?
— Então agora você está preocupado comigo? — Ficou de pé, passando a caminhar até as barras de ferro que os separavam. Se pudesse, já estaria com as mãos no pescoço dele. — Quero distância de você.
— Eu só quero o seu bem — insistiu cansado. Daniel estava visivelmente exausto. — Tem várias pessoas lá fora com ódio pela morte do Carlinhos. Podem machucar você. Vai ser melhor se estiver comigo do que sozinha.
— Não acho que seja isso, mas infelizmente você é a única opção que me resta.
Daniel não gostou nada do que escutou, mas quem disse que ele quis revidar? Tinha um ar de submissão naquele homem que chegava a ser broxante e deplorável. Analisando melhor o atual contexto, era essa a “vantagem” que Rafaela tinha e sendo bem honesta, eu o usaria se estivesse na mesma situação.
— Depois você sente mais raiva de mim, agora vamos — virou-se para trás, acenando para um policial que foi até lá abrir a porta da cela. — Obrigado.
— Disponha.
O homem lançou um olhar suspeito para Daniel e Rafaela, fazendo a mulher pensar em que tipo de assunto poderia ter saído da tarde que passou com ele. Era óbvio que as pessoas iriam comentar. Em cidade pequena, todo mundo sabe de tudo.
Daniel tocou no ombro dela e disse para onde deveriam ir, no entanto, era um espaço pequeno e Rafaela conseguia decorar um pouco os ambientes por onde passava. Na mata, quando achou Carlinhos, não teve essa vantagem, mas agora, que estava em uma delegacia mequetrefe do interior, conseguiu voltar tranquilamente até a recepção após se afastar de Daniel.
— Juízo, moça — o delegado estava ali, conversando com alguns policiais, mas mudou o foco quando os avistou. — E você, cuida direitinho dela, ok? Não quero saber que alguém aqui foi linchada.
— Claro. — Daniel ficou sério e tal seriedade chamou a atenção de Rafaela. Não apenas isso, mas o desconforto que pairava ali. Ele sabia de algo e tinha muito a dizer. — Boa tarde.
Rafaela não deu um passo por estar encarando o delegado, que franziu o cenho, se questionando algumas coisas. Contudo, Daniel segurou no braço dela e a tirou de lá com tanta facilidade, que até mesmo ela ficou surpresa pela força que ele tinha.
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A Manifestação do Mal
HorreurA cidade de Aurora Celestina é a escolha de um grupo de amigas para sua viagem anual. De passagem pelo local, elas irão ver que, muitas das vezes, o Mal se materializa de forma humana, levando elas para um caminho sem volta.