As miríades de velas intermináveis, presas a castiçais ou a lustres, iluminavam o quarto quando Lilly pôs os pés nele. Aquela altura, Seth já estava lá, e lia um livro gigantesco sobre magia elemental quando a morena chegou. À sua esquerda, na cama, repousava uma tigela cheia de gostosuras. Ali, naquele mundo cujas maravilhas do cacau eram desconhecidas, a maioria dos doces eram derivados frutas açucaradas e continham um ou dois feitiços para torná-los mais interessantes. Os da loira, por exemplo, tinham formato humano e gritavam por ajuda, e era possível observá-los chorando por seus entes queridos ou sufocando sem ar.
– Achei que você tava batendo perna por aí – Calíope lançou, sem perceber o massacre açucarado que ocorria na proximidade, enquanto se aproximava de seu baú e o abria. De lá, tirou uma muda de pijamas de frio e os jogou sobre a cama. Depois, prosseguiu a abrir o zíper de seu vestido. Seu comentário fez Seth rir e responder:
– Bem, conheço poucos que bateriam perna com uma neve dessas por aí. E pouquíssimos que abririam mão de uma boa noite de sono às vésperas das primeiras aulas do ano. Mas você está certa em pensar que eu faço parte dessa pequena parcela. Seria praticamente ofensivo cogitar o contrário.
A loira, em seguida, virou a página desgastada do livro. Parecia ler aquele tijolo repleto de informações com a mesma tranquilidade que leria uma história de ninar. Inclusive, a menina já parecia estar com um certo sono, pois suas atividades escancaravam uma lerdeza típica de quem se esforça para se manter desperto. Como quem luta contea esse impulso de fechar os olhos, ela ditou em voz alta:
– “Quanto maior a área e distância que a magia do portador cobrir, maior sua aptidão inata. No entanto, precisão, aceleração, força e velocidade são algumas das propriedades que somente anos de treino consistente podem trazer ao mago”. Legal, né? Já ouvi dizer que Karliv Vitheron conseguiu pulverizar um pássaro que voava a uns duzentos metros de distância lançando contra ele um feixe de magia com um dos dedos. UM dos dedos! Na verdade, achei meio fraco, sabe – debochou – Um dia vou fazer a mesma coisa, só que ainda mais longe. Daí todo mundo vai ajoelhar diante da minha superioridade e implorar por piedade. E, adivinha só? Eu não vou ter.
– Isso é uma daquelas suas previsões malucas? – zombou Lilly, enquanto terminava de se trocar. A loira retrucou, dizendo ser apenas um fato, o que fez Calíope assegurar – bem, você vai ter que se esforçar mais do que ler um livrinho desses antes de dormir.
Em resposta, Seth argumentou:
– Não me diga o óbvio. Porque você acha que estou aqui? Trabalhe enquanto eles dormem. – Seth explicou, o que fez a morena questionar, provocando:
– E o que te faz pensar que ele está dormindo?
– Por favor, Calíope, não conheço uma alma viva que consiga estudar depois de uma festa dessas. – rebateu a garota, enquanto traçava, nas páginas, o caminho de seus olhos com os dedos. Desdenhava daquela possibilidade com tanto zelo que nem sequer interrompeu suas atividades.
– Pois fique sabendo que ele não só está estudando, como está na biblioteca. – Lilly disse, o que fez a loira encará-la com um grande descaso em sua expressão, antes de voltar sua atenção para o que acreditava ser realmente importante. Ela considerava aquelas tentativas bobas de desestabilizá-la uma grande perda de tempo da colega – Olha só, você não acredita!
– Tá bom, Braga. Tá bom. Se você se sentir a vontade, pode contar o resto da história para minha testa. – implicou, desacreditada, enquanto voltava uma página para relembrar de um trecho do livro que complementava a passagem que acabara de ler.
– É sério, ele me contou. – Calíope falou, dando ombros, e Seth levantou os olhos para verificar a falsidade em seu olhar, mas não encontrou. De repente, teve essa realização de que a garota falava a verdade e se contorceu em agonia.
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Calíope Braga
FantasyCᥲᥣί᥆ρᥱ Brᥲgᥲ ℯ𝓂 𝓊𝓂𝒶 𝒶𝓋ℯ𝓃𝓉𝓊𝓇𝒶 𝒹ℯ ℴ𝓊𝓉𝓇ℴ 𝓂𝓊𝓃𝒹ℴ (Por enquanto, um capítulo por semana) (Se acharem que a história tá boa, não esqueçam de votar pra dar um apoio ;-;) "O destino conduz o que consente e arrasta o que resiste." - Sêne...