Aquele que permeia a noite

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Ninguém sabe como anda a cabeça da autora nesse exato momento.

                                     (...)

Pertencer a algo, gera conforto. A maioria não busca acabar com as iniquidades que assolam a sociedade, apenas querem ver o seu próximo dividindo de sua mesma opinião. É cômodo, mas não sana o real problema. 

Em Aurora Celestina, ninguém queria se ver livre do Mal. 

— É uma boa troca… 

Gesticulou com os dedos magros, longos, sujos de terra e sangue, fora a carne podre que evidenciava alguns de seus ossos. 

— Daniel. 

Aquele diálogo seguia de forma tão doentia, que qualquer pessoa em sua plena sanidade, teria pavor. Vidas sendo vendidas como se nada fosse, e tudo porque o interesse de alguém estava acima de outro. 

— Já que é assim, deveria agir logo. Não sou conhecido por ser muito paciente. 

Receber a atenção daquela coisa era de deixar qualquer um desconfortável. Até mesmo Daniel, que era um homem forte e meticuloso, não sabia o que fazer sem que se tornasse a próxima vítima dele. 

— Claro, ok. 

Engoliu seco. A tensão era tanta que ele sentia um fino suor gelado descendo por seu pescoço. Agora que ele havia conseguido o que tanto almejava, deveria pensar em um plano para conseguir levar Rafaela até sua casa. 

— Isso é errado! Não podemos aceitar esse tipo de coisa! 

A atenção toda recaiu no senhor que falou alto, numa busca falha pela sensatez das pessoas daquela cidade. Baixinho, franzino, sem vida. Não era agradável aos olhos daquele homem, que o olhou com tédio, preguiça. Até bocejou quando o viu ficar de pé. 

— Não somos como ele! Esse diabo! 

O senhor bradou, com sua última chama de lucidez e coragem. Ou talvez o medo que tenha alimentado hoje. 

— Não são? 

Se moveu na cadeira grande e confortável no qual estava, apoiando a sua cabeça em sua mão, olhando-o agora com curiosidade. O assunto chamou a sua atenção, tanto quanto a dos demais “devotos” de Aurora Celestina. 

— Não! Você vem aqui todos os anos e nos obrigada a fazer essas atrocidades! Não somos monstros… Deus não acha certo isso. 

— E você acha que ele é convosco? 

Se inclinando, deixando a voz soar mais ameaçadora, junto de um sorriso perturbador. Qualquer um ali teria pesadelos com a cena no qual presenciou. 

— Cala a boca! 

Uma mulher gritou de longe e junto dela, um efeito manada se instalou naquele cômodo. O senhorzinho não quis desistir, precisava fazer algo para trazer a verdade novamente aos olhos daqueles com quem por anos conviveu. 

— Pelo amor de Deus, o que estamos fazendo, é errado. Deus não está aqui! Ele vai nos mandar para o inferno se continuarmos assim! 

Tossiu enquanto falava, o desespero passando por cima da eloquência. Era difícil convencer alguém de que tudo ficaria bem, quando o causador de tamanho mal, estava bem ali, apreciando a cena como se estivesse em um grande espetáculo. 

— Ele? Ah, sim. Fico feliz de que faça uma análise mais correta das coisas. E sabe porque você irá para o inferno, Sílvio? Porque você foi conivente com muita coisa aqui. Sabe, comigo as coisas não funcionam assim. Você mesmo já colocou as mãos imundas em algumas vítimas, eu vi o prazer que teve em matar alguém que, ao seus olhos, era uma aberração. Não me venha com falso moralismo, quando eu não precisei nem ao menos mover um dedo para que você, ou melhor, vocês, passassem a agir como os animais que são! 

A Manifestação do Mal Onde histórias criam vida. Descubra agora