Aquilo que machuca

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Oiê, tudo bem?
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Lidar com a morte sempre é difícil, traumático e devastador.

Thaynara sentia esse medo crescer a cada segundo, dentro do seu interior. Não é difícil saber que certas coisas, mesmo que sejam ruins, estão destinadas a acontecer.

— Está confortável?

Caio apareceu na sala de sua casa, segurando um edredom e um travesseiro. O sofá do cômodo, que também se tornava uma cama parcialmente macia, fora posto para que ela pudesse ao menos descansar antes do horário de sua fuga.

— Dá pro gasto.

— Ei, esse sofá foi um presente da Sheila. Era o melhor da loja, tá?

O tom sério de Caio, deu lugar a um pequeno sorriso. Ele também estava preocupado, e tornar tudo mais difícil, não era o que buscava ali. Diferente de Thaynara, ele nunca foi uma escolha daquela criatura, ou até mesmo da direção da cidade, que decidia quem morreria ou não.

— Só estava brincando — pegou o edredom das mãos dele e o abriu. Caio deu mais alguns passos, ajeitando o travesseiro macio ali, averiguando se tudo estava bom o bastante para as poucas horas de sono de Thaynara. — Obrigada por estar me ajudando.

— De nada.

Se afastou, indo em direção ao outro sofá que era padrão, sentando-se ali. Ansioso, juntou as mais meio trêmulas e olhou para o relógio da parede. Nada de Sheila voltar e ele se via cada vez mais preocupado.

— Desde quando isso acontece?

Thaynara decidiu puxar assunto, mas ele não sabia se era útil contar tudo ou não.

— Faz muito tempo. Eu nasci e essas mortes já eram comuns nessa cidade.

— E nunca pensou em uma forma de parar isso? Chamar a polícia talvez?

Thaynara se cobriu um pouco, escutando um riso isento de alegria vindo daquele homem. Caio encostou melhor as costas no sofá, respirando profundamente ao encarar o teto de sua casa por poucos segundos, até que voltou a olhar para ela.

— Eles estão metidos nessa — revelou o que já era esperado dada a situação. — Tudo aqui funciona para que nenhum morador seja morto. Então sempre atraem turistas pra cá.

— E dessa vez, fomos nós.

A voz dela saiu baixa, quase que inaudível. Cansada, levou suas mãos até o rosto, cobrindo enquanto era consumida por uma enorme angústia.

— Exatamente — encarou a expressão apática dela. Thaynara deitou a cabeça vagarosamente no travesseiro, não contendo mais suas lágrimas. A angústia ia lhe consumindo rapidamente agora. — Eu sinto muito, por você e por suas amigas também.

Ainda que não pudesse fazer algo maior, Caio tinha noção de que poderia ao menos salvar uma vida. Isso já bastava, pois ela poderia sair dali e voltar depois, com reforços contra aquele esquema asqueroso, para botar abaixo o abatedouro humano que se tornou Aurora Celestina.

— Tudo bem. A culpa não é sua.

Encarou Caio, vendo nele alguém bom. Diferente das pessoas daquela cidade, de quem tem medo e age sem pensar.

— Você quer um pouco de chá? Pelo menos vai te ajudar a dormir.

— Sim, eu quero.

Aceitou, deixando no sofá-cama desajeitadamente, não sabendo mais o que pensar ou até mesmo fazer.

A Manifestação do Mal Onde histórias criam vida. Descubra agora