Capítulo extra

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Nicolas Machado

 — Devolve o meu celular, garoto!  — Amélie entrou correndo na sala, aparentemente tentando alcançar o irmão.

Eloise e eu estávamos em completa paz, sentados no sofá, assistindo ao noticiário quando os dois surgiram como um furacão. Isso é o que dar ter uma criança e uma pré-adolescente debaixo do mesmo teto.

 — O que está acontecendo?  — minha esposa já estava sem paciência.

 — O Thomas pegou o meu celular! Manda ele devolver, mãe!

Olhei para o meu garoto de cabelos castanhos como os da mãe. Enquanto Amélie era a minha versão feminina, Thomas era a versão masculina de Eloise. Apesar de que, às vezes, eu o olhe de relance e o ache parecido comigo. Acho que ele é a mistura perfeita de nós dois.

 — Pai, o senhor não sabe o que eu vi  — disse ele em um tom zombeteiro.  — Amélie está com um namorado!

Me engasguei com minha própria saliva. Eloise riu.

 — É mentira dele, pai!

 — Ah, é?  — Ele fez uma cara sapeca e provocativa.

Retiro o que disse, ele é definitivamente a cara da mãe.

 — Me dá esse celular, Thomas!  — ordenei.

O garoto veio com o ar de vitória até mim.

 — Papai, isso é invasão de privacidade!

 — Ela tem razão, querido.

Ignorei as duas e li a mensagem.

"Você é a garota mais gata do colégio, Lie", dizia a mensagem.

 — Gata?  — menosprezei.  — Se valorize, minha filha. Esse garoto não tem um bom linguajar para elogios. Você não é só gata, você é linda.

Ela tirou o celular da minha mão.

Seus fios loiros estavam presos em um coque desajeitado e a sua face era de pura raiva.

 — Eu me valorizo, pai. Só que, na minha geração, esse é um elogio adequado.

 — Sabe que é muito nova para namorar, não sabe?

 — Ela não se importa com isso, pai.

 — Cala boca, Thomas! Quer que eu conte para a mamãe sobre as suas namoradinhas da escola?

 — Namoradinhas?  — Eloise arrumou a postura, encarando o nosso filho.

 — Nenhum dos dois devia estar pensando nessas coisas!

 — Ouçam o pai de vocês!

 — Papai, o senhor sabe que eu não penso nisso! Mas eu não posso recusar elogios, posso?

 — Garotos infelizes...  — murmurei.  — Todos sabem que você é linda, é só olhar para mim e para a sua mãe para terem mais certeza  — estalei a língua.  — Eles precisam aprender a apreciar a sua beleza em silêncio. Vou falar com o diretor para resolver esse problema.

 — O quê?  — Ela se empalideceu.

Olhei para Thomas, depois para Eloise, e nós três caímos na gargalhada.

— Estou brincando, filha. Com os nossos genes é comum receber elogios.

— O papai tem razão, nós somos lindos.

Fiz um Hi-five com o meu filho.

— Nicolas, não ensine aos nossos filhos a serem esnobes!

— Querida, eu...

— Xiu!

— Mas mamãe...

— Silêncio, Thomas! Acha certo o que fez? Você iria gostar se fosse Amélie a pegar o seu celular ou até mesmo o seu videogame?

— Não... — o menino baixou a cabeça.

— Peça desculpas a sua irmã!

— Desculpa, Amélie.

— Amélie, desculpe ele!

— Tá desculpado, Thomas.

— Agora se abracem!

Mesmo com relutância, os dois se abraçaram.

— Vocês são irmãos e precisam ser melhores amigos. Se eu ver um querendo prejudicar o outro vão ficar de castigo!

— A senhora tem toda razão — disse Thomas.

— Ótimo. Agora vão terminar de arrumar as coisas de vocês para a viagem de amanhã.

— Estou muito orgulhosa de vocês. Fashion Week em Paris, hein, mãe? As minhas amigas não param de elogiar a sua nova coleção!

— E os meus amigos só usam as roupas da coleção que a senhora fez com o meu nome.

Eloise sorriu de orelha a orelha.

— Ah, seus pestinhas, venham me dar um abraço!

Os dois se jogaram em cima dela.

— Ei, eu também quero! — resmunguei, sendo puxado para aquele abraço coletivo.

Meu peito se inflou de alegria.

Ainda era difícil de acreditar que a minha vida era tão boa, que era cheia de amor. Aquela família era e sempre seria o meu maior sonho e a minha maior conquista. Momentos como aquele me faziam lembrar do quanto eu era grato por estar vivo.

Após aquele abraço, os dois voltaram para o quarto para terminar de arrumar as suas coisas, assim como a mãe havia mandado.

— Nossa, essa fase está demais — comentei.

— E você ainda queria ter mais de dois filhos...

— Ainda estou aberto a essa possibilidade. Quer tentar fazer o terceiro hoje?

Ela riu, dando um tapa no meu braço.

— Palhaço.

— Um palhaço que você ama.

Ela me olhou com aqueles olhos de esmeraldas, que agradeci aos céus por nossos dois filhos terem herdado. Os lábios dela se esticaram em um sorriso singelo.

— Amo mesmo.

Sem ter autocontrole, me aproximei dela, deixando um selar em seus lábios.

— Eu também te amo, rabugenta.

— E lá vem você com esse apelido...

— Estou pensando em citar ele na nossa renovação de votos.

— Renovação de votos?

Fiz cara de choque.

— Você não sabia? Estou planejando tudo!

— Mas nós fizemos isso ano retrasado.

— E vamos fazer de novo.

Ela não segurou uma risada.

— Quando vai parar de ser exagerado?

— Quando isso parar de te fazer sorrir.

Seu sorriso foi largo, o que me fez me sentir ainda mais completo.

Podia passar o tempo que fosse, mas eu sempre amaria essa mulher da mesma forma que sempre amei.


Me odeie, mas me ame. (Degustação + capítulos extras)Onde histórias criam vida. Descubra agora