6 - Coração confuso.

67 9 4
                                    

Depois da escuridão, mais trevas. A rainha dos demônios fora eliminada, mas não sem seu preço. Junto haviam perecido Trúz, o comandante do Segundo Exército, e o grande mago Gandrudëj. O corpo da velha Cibandra não foi encontrado e não sabia-se ao certo se ela havia morrido, ou se retornara a suas terras após aquela terrível batalha. O encontro dos exércitos levou aquele ninho ao seu fim, mas à custa de milhares de baixas. Aquela poderia ter sido uma vitória significativa e importante, mas não servia para nada, além de adiar um pouco mais o destino terrível que as hordas invasoras anunciavam sobre a terra. Infelizmente, aquela estava longe de ser uma bases de importância vital para as hordas invasoras.

Mas para Öfinnel havia um lado positivo, o reencontro com seu filho Devian.

— Pai! — Devian entrou na tenda na qual o rei recebia cuidados deitado num leito.

O rei não respondeu. Olhou para o filho, tinha uma aparência mais madura, e mais cansada. Os olhos diziam muito. Era um surpresa vê-lo com trajes militares. Ele tinha um porte menor, menos robusto, mas tinha uma boa aparência com a armadura. Ao menos uma parte dela. Estava sujo de sangue, lama e muco. Os cabelos estavam curtos e havia uma cicatriz de queimadura na lateral do rosto. Já não era aquele rapaz de antes, afeito aos livros e bibliotecas. Devian chegou-se e envolveu o pai num apertado abraço.

— Achei que tinha morrido, pai... — ele tinha lágrimas nos olhos. — Depois ouvi boatos, mas agora... — olhou-o de cima abaixo e indagou — Como se sente?

— A perna dói, mas de resto estou bem. Estou muito feliz em vê-lo bem, meu filho. E sua mãe, os meninos?

Ele sentou-se uma baqueta ao lado do leito — Estão à salvo, mas nunca tive a chance de vê-los. Estão nos ermos gelados do sul.

Öfinnel havia ouvido aquilo, mas era reconfortante ouvir novamente. Era uma confirmação de que suas visões tinham servido ao propósito de salvar muitas mulheres e crianças de Umm.

— Então, agora responde ao título de rei?

Öfinnel tocou a fina tiara prateada usada pelo filho.

— Um rei sem terras... — ele riu. — Mas, agora que está aqui, teremos de rever isto. Sinceramente ficarei muito feliz em voltar a ser chamado de príncipe. O reinado impõe um pesado fardo sobre as costas.

— Eu bem sei disso, filho.

— E agora?

— Se puder, venha conosco. Temos que formar acampamento nas proximidades do grande vulcão, foi predito pelos sábios.

— E suas visões, estão de acordo?

— Sim, neste caso, sim. Será uma importante base para nós.

Dois dias depois, o acampamento foi desfeito e rumaram em direção aos pés do imponente e furioso monte Hostenoist. Ali, reuniram-se profetas e sábios vindos de Vellistrë. Muitas previsões e estudos vinham ocorrendo. Compreender os motivos daquela invasão, compreender os demônios, hordas, sua organização e seus líderes, tornou-se uma prioridade para estes doutores do saber. O ninho e seus segredos eram mais uma valiosa fonte de estudos. Três importantes sacerdotes, refugiados dos templos sagrados da região de Ecce, tiveram mesma visão: Anteviram a batalha do Segundo Exército e o encontro do pai com o filho. Visões de profetas, naqueles anos de sofrimento, perdas e incerteza, davam a muitos alguma esperança e para outros, a força e motivação para direcionar seus esforços, empreender projetos e confrontar o inimigo.

Muitos acreditavam estar sob influencia direta da filha de luz, a deusa Leivisa. O rei acompanhou de perto debates e ponderações nos anos seguintes, enquanto eram definidas a razão da invasão e suas implicações. Alguns diziam que os deuses Forlagon e Ectarlissè não estariam sequer sobre a terra e sim em um plano distante, a lendária Fandall, lar dos elfos. E que em sua ausência, os deuses respondiam à autoridade de Triox-lón. Este, sempre havia sido um defensor do aprendizado das conseqüências das ações, de humanos e elfos, por si só, e da não interferência dos assuntos dos deuses, com assuntos dos mortais.

Öfinnel. Rei. Vidente. Guerreiro. Lenda.Onde histórias criam vida. Descubra agora