Seu Mário acordou desejando que fosse segunda-feira e Deus cooperou consigo. Domingo foi dia daqueles que quase não contava o relógio. Missa pela manhã, almoço, despedida da família à tarde, e à noite além de enamorar-se do anel Seu Mário somente passeou na pracinha de frente a igreja. A noite clara de lua cheia e sem nenhuma nuvem ajudou também a iluminar as idéias do velho. Era a primeira vez que pensara na razão daquele anel ter sido encontrado por ele. Qual a vontade do Todo-Poderoso em permitir que exatamente em suas mãos fosse parar aquele objeto de todos desejado? Por que ele? Queria saber, precisava mesmo saber. Foi aí que teve a idéia de falar com Gideão.
Então pela manhã saiu defronte à casa e viu Maria ainda adormecida ao chão e foi-se pelo Beco das Almas procurar o amigo.
Gideão era para Seu Mario o homem mais sábio de Pé de Serra e digno de toda consideração. Eram amigos desde sempre. Dos tempos de brincar até a viuvez de Seu Mário. Era velho da mesma idade de Seu Mário e tinha um pouco mais de dente e menos cabelo que o amigo. Também tinha mais um bocado de dor nas costas e no joelho que sempre o impedia de sair de casa qualquer hora.
E era surdo e mudo.
Por isso, também, não havia melhor confidente que este. A amizade já lhe conferia a confiança de Seu Mario, mas ele pensava sempre que não ia bater com a língua nos dentes, mesmo que quisesse.
Seu Mário confiava tanto em Gideão, que certa vez, depois de uma severa virose pensou que ia morrer. E em seu provável leito de morte pediu que deixasse Raimundo, ainda menino com Gideão e também cem reais que guardava debaixo do colchão. Coisa de grande amigo, mesmo.
Quando sarou, Seu Mário teve que aguentar algum tempo Gideão querendo os cem reais como indenização pelo susto de ter que ficar com Raimundo, que à época era tão atentado quando o neto Caíque.
Na hora em que chegou à casa de Gideão, Dona Chica, sua mulher, estava assentada à porta como costume.
Dona Chica não tratava bem a Seu Mário, dizia que o velho era doido, que só vivia falando com aquela burra, resmungando sem parar. Ia acabar passando loucura pro marido. Isso dizia a todos abertamente. Mas a verdade escondida por trás de toda aquela aspereza é que fora apaixonada por Seu Mario por toda a sua juventude.
Até onde se sabe Chiquinha, como era chamada, era uma moça muito bonita e simpática e desejada por muitos rapazes de sua época. Tinha pernas bem torneadas e cintura fina e uns olhos castanhos belíssimos.
Um dia Chiquinha se achou apaixonada pelo rapaz negro e forte que trabalhava na feira e na venda de Seu Quintinho e que odiava a escola.
Para se aproximar de Mário, Chiquinha foi fazer amizade com Gideão que viria a ser o seu melhor amigo. Aconteceu que Chiquinha ganhou uma concorrente, aquela que seria a futura esposa de Mario, Carminha. E essa rivalidade fez aflorar em Chiquinha o seu lado mais obscuro.
Não demorou muito para culminar em desgraça.
Descobriu que estava perdendo a disputa. Um dia ficou sabendo que os dois haviam marcado um encontro no monte Belo. Aí teve a brilhante idéia de pagar a dois caras para raptarem Mario às vésperas do encontro e forjar assim um desinteresse do rapaz por aquele romance. Mandou que amarrassem a Mario num umbuzeiro e planejava ela mesma ir ter com ele e salvá-lo a fim de conseguir preciosos pontos naquela disputa. Entretanto, o tiro saiu pela culatra. Depois de dar uma surra em Mario e amarrá-lo, um dos brutamontes achou muita crueldade deixá-lo exposto ao sol que fazia.
_ Rapaz, bora procurar outro pé de árvore, senão este coitado vai acabar morrendo. E não quero pegar cadeia por isso, não.
_ Deixe de ser besta, homem, não ouviu que logo depois que a gente o deixasse, Chiquinha, viria pra bancar a heroína.
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O Anel do Rei
General FictionO Romance narra a história de Seu Mario, um velhinho do interior da Bahia e sua saga depois que encontra um anel supostamente valioso e toda aventura para protegê-lo de todos e seus devaneios que farão você ir do riso às lágrimas! Por favor comente...