CAPÍTULO XVIII O FIM DE TUDO E O RECOMEÇO

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A penumbra dos primeiros minutos do dia e mais a frágil condição das vistas de Seu Mario tornava tudo muito escuro. Era preciso a velha destreza da burrinha que sabia de cor a estrada. Seu Mario parecia mais pesado do que o comum. O peso da decisão. Vinha de cabeça baixa, o chapéu de couro cobrindo a desnecessária visão e escondendo o rosto triste de Seu Mario. Sim, Seu Mario estava triste. Desfazer-se do anel era despedir-se do sonho real. Queria intensamente o palácio, as regalias, as pompas que lhe conferia a majestade, e sabia que mesmo de posse do dinheiro que faria com a venda, não obteria mais do que o luxo, contudo ainda estaria muito distante da vida de nobre que o anel lhe concedia.

Em seu íntimo, Seu Mario, reconhecia ser o homem simples do sertão. Acostumado à dureza da vida, à falta de dinheiro e até mesmo à fome. Tanta gente sua vira nascer em desgraça, padecer a pobreza e morrer sem amparo, que se acostumou. Mas sabia que no mundo outros tantos gozavam a plenitude das riquezas. Sentia que havia certa injustiça nisso. Sonhava, principalmente quando criança, com uma virada em sua vida, que viera agora, à beira da morte. Mas era preciso interromper a utopia e aproveitar apenas o agrado que a vida lhe fazia.

Pensado isso, estabeleceu um preço mínimo para a venda. Trezentos mil. Comprava com este dinheiro uma fazenda, umas cabeças de gado, botava a sua gente aí e vivia em paz o resto dos seus dias. Não haveria o mesmo luxo de seu reinado, mas seria muito mais do que a vida de hoje lhe oferecia. E se o homem avaliasse a peça num valor menor não aceitaria. Voltaria para Pé de Serra para enfrentar todas as perseguições de Dona Chica, delegado Adubaldo e de quem mais viesse. Encontraria outra solução. Só não venderia uma jóia tão rara á preço de banana. Isso não.

Já havia caminhado umas duas horas quando sentiu que um carro vinha pela estrada bem devagar. Não entendia porque não o ultrapassava. O carro apesar de bastante velho, não parecia ter nenhum problema mecânico que o impedisse. Era mesmo uma opção andar atrás de Seu Mario e a burrinha. Deu uma olhada para trás e não pôde ver quem era o motorista. O insulfilme escuro não permitir ver a cara do sujeito.

Preocupado e desconfiado Seu Mario parou para tomar água e descansar um pouco. Achou um umbuzeiro que oferecia bastante sombra e estacionou Maria ali. O calor aquele dia era o maior de todo aquele tempo de seca na região. O ar irrespirável fazia a sensação de calor aumentar consideravelmente e desgastar ainda mais o idoso e a burrinha. Para espanto de Seu Mario, quando desceu de Maria, o carro que os seguia também havia parado na estrada. Esperou um pouco para ver se descia alguém. Talvez tratasse de alguém com roça por ali que coincidentemente estava averiguando a terra. Mas ninguém desceu. Pensou, então, em ir até ele e saber quem era, mas estava com medo. Montou Maria e seguiu viagem. Sem paz alguma a partir daí. Quem seria o motorista daquele carro? Um investigador a mando de Adubaldo ou alguém que desconfiasse que ele tinha o anel?

Apertou o passo, tinha que chegar logo a Riachão. Se fosse alguém que o quisesse matar a estrada seria um ótimo cenário. Nesta pressa, chegou uma meia hora antes do previsto. Maria estava morta. A língua de fora, os olhos esbugalhados. A bichinha não conseguia dar nem mais um passo. Parou bem de frente a um boteco na entrada da cidade. Seu Mario correu pedir água ao dono para dar à amiga.

Depois de refrescar um pouco a burrinha, entrou novamente no boteco, enquanto do outro lado da rua o carro permanecia estacionado e com os vidros fechados.

No boteco pediu que lhe servisse um guaraná. Sentou numa banqueta, virado para fora a espreitar tanto o carro quanto a burrinha. Seu Mario quase mijou nas calças quando viu que a porta do carro se abriu. Um cabra alto e mal encarado saiu dele e veio caminhando em direção ao boteco. Seu Mario pensou em sair correndo, mas sequer tinha forças para levantar. Esperou então que o homem entrasse, puxasse de outra banqueta e sentasse ao seu lado.

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