Capítulo 1

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– Jutaí Magalhães Junior, vê se sai do mundo da lua e vem me ajudar a por o almoço na mesa! Vê se para de sonhar garoto! E para com essa história de que um dia vai ser alguém, porque nós pobres não somos ninguém! A minha mãe já dizia:

– "Pobre não tem vez"!

Deija sempre repetia a mesma frase, mas Juca por ser garoto muito esperto sempre contestava o que sua mãe dizia porque acreditava que os sonhos poderiam se tornar realidade e logo retrucava:

– Mãe! Não é porque somos pobres, que não podemos ser alguém nesta vida! Não podemos deixar que o título de pobre, nos tire o direito de sonhar. – disse Juca entusiasmado.

– Quem te ensinou a falar tão bonito menino? – disse dona Deija surpresa com as palavras de seu filho.

– Ninguém mamãe... apenas achei um livro de Graciliano Ramos "Vidas Secas" e comecei a ler e descobrir que com caneta e papel podemos viajar por vários lugares diferentes sem gastar nenhum centavo e como não temos dinheiro mesmo, me dedico a viajar pelas paginas de um bom livros. – disse ele debruçado sobre a mesa da sala.

– Meu filho! Não seja ingênuo! Disse ela pegando em sua mão.

– Ingênua está sendo a senhora mamãe. – enfatizou.

– Olha o respeito menino! E vamos parar com esse papo de que um dia vai ser alguém! Nós somos pobres e a vida é tão dura que até pra sonhar custa caro, por isso pare de dizer bobagens! – disse ela grosseiramente.

– Mãe, se a senhora não é capaz de sonhar, por favor! Não destrua meus sonhos! Eu sou um cidadão livre não sou? – perguntou educadamente.

– É claro que sim! Mas você tem que ter os pés no chão meu filho. A vida é tão cruel, que não nos dá o direito de sonhar. – disse dona Deija mexendo em suas panelas de barro.

– Está enganada mais uma vez mãe... temos o direito de sonhar e ninguém pode nos tirar isso. Talvez as dificuldades da vida nos impeçam de ter uma boa casa, roupas boas, alimentos na mesa, mas nunca vai me impedir de sonhar e lutar pelos meus objetivos! Não deixarei que a sociedade dite o que eu vou ser ou deixar de ser! No meu mundo há espaço pra tudo, se eu quero viajar de norte a sul viajarei nas linhas de um caderno. Os sonhos é você quem constrói e eu estou construindo uma estrada de sonhos onde só os determinados vencerão... eu não vou ficar pra trás! E pode escrever o que eu digo! Um dia eu vou ser alguém! – sorrindo.

Juca disse aquilo com tanta convicção que sua mãe, uma pessoa tão castigada pela vida passou a observá-lo de outra forma e desde então passou a creditar que um dia ele podia ser alguém, pela sua coragem e determinação.

O mais incrível nesta história é que Juca não gostava de ler, mas a partir do momento em que ele achou um livro descobriu sua verdadeira vocação. Ele passava as noites escrevendo versos, poemas e contos porque acreditava que um dia seria um grande escritor e que teria sua obra reconhecida e provaria para o mundo que todos podem conquistar seu espaço. Ele escrevia sobre o amor, sobre as dificuldades da vida e como podemos superar os obstáculos.

Quanto mais o tempo passava, mas ele acreditava que seus sonhos se tornariam realidade. Juca estudava em uma escola humilde do município, seus professores o admiravam, pois era um garoto dedicado e inteligente. Certo dia sua turma foi convidada para assistir uma peça em um dos colégios mais famoso da cidade, Juca por sua vez era o mais entusiasmado da turma porque sempre sonhou em pisar num teatro, outrora dava asas a sua imaginação e imaginava que um teatro era um lugar com muitas cadeiras bonitas e um palco enorme onde os artistas se apresentavam. Neste dia ele chegou em casa saltitando de alegria e dona Deija sua mãe logo perguntou:

– Que alegria é essa meu filho?

– Mãe você nem vai acreditar! A minha turma foi convidada pra ver uma peça no Colégio Tavares, era tudo que eu precisava pra começar! – entusiasmado.

– Juca meu filho! Quando é que você vai sair do mundo da lua? – entristecida.

– Mãe há dias que venho trabalhando em um projeto e se a diretora do Tavares ver meu livro quem sabe ela não me...

Dona Deija sua mãe logo o interrompeu:

– Já disse pra parar com isso! Aquela escola não é pra meninos como você! – exclamou em alta voz.

– Como assim não é pra meninos como eu? Eu sou como qual quer garoto da minha idade e tenho o direito de ver o mundo com meus próprios olhos.

– Seus olhos são ingênuos meu filho... ler aqueles livros só está fazendo com que você tenha ilusões e eu não quero que se magoe. Entendo que goste de escrever e imagine que pode tudo... porque tem um caderno e uma caneta nas mãos, mas a nossa realidade é bem diferente. Eu trabalho dia e noite pra manter a nossa casinha, faço das tripas coração pra sustentar você e sua irmã desde que seu pai se foi e não quero ter que me preocupar em ter que arrumar um psicólogo pra você quando cair na real e ver que tudo não passou de um sonho. – disse ela pegando em sua mão e acariciando sua cabeça.

Juca logo se desvencilhou de sua mãe e retrucou:

– Mas mãe, por ora eu só quero ser o orador da minha escolar, defender meu ponto de vista na questão da educação, da leitura... provar para os meninos e meninas da minha idade que quando se tem educação fica mais fácil pular os obstáculos. Eu fiquei sabendo que no colégio Tavares eles promovem todo ano um concurso de jovens escritores e eu daria minha vida pra participar deste concurso, mas é só para os alunos do próprio colégio, então eu fiz um discurso pra ler no dia da peça antes de começar o espetáculo. E com uma ajudinha da sorte talvez os coordenadores do concurso me deixem participar depois de ouvirem meu discurso.

Eu já posso imaginar... O teatro lotado e eu com toda minha eloquência falando em alta voz: cidadãos de Riacho mole! Quem disse que um menino com nome Juca, que nasceu de bunda, de miolo mole, que a terra quase engole que não tem medo da morte, que sonha acordado e de olhos fechados tem medo de ser confrontado com as coisas da vida? Só sei que nesta triste lida eu dou valor à vida e mesmo não tendo espaço para meu cavalo alado eu sonho acordado porque de olhos fechados eu fico assustado por conta do escuro, mas de olhos aberto com uma caneta e um caderno eu sou majestade e todos meus sonhos são concretizados. E...

Sua mãe logo o interrompeu:

– Pará com esse discurso bobo e acorda pra vida garoto! Você acha mesmo que esse monte de besteiras vão te levar pra lugar algum? – disse extremamente nervosa.







O menino que queria ser alguém...Onde histórias criam vida. Descubra agora