Janaina Cruz
Escreve desde os 12 anos de idade, de lá para cá ganhou concursos de blogs e participou de algumas antologias como: Antologia Inverno, acordando sonhos da pastelaria Studios em Lisboa-PT, com o poema “O Mulato”, 1ª Antologia Literária escritos lisérgicos com o poema “Lisergia Natalina”, 4ª antologia poética da ALAF com o poema “Estio” e das antologias Voar na poesia e Recanto da poesia. A sua poesia “Valei-me” foi premiada na 2ª mostra de poesia abril para leitura edição Pedro Bandeira do Centro Cultural Banco do Nordeste. O seu conto “O último suspiro” foi um dos ganhadores do Prêmio Luso-Brasileiro Melhores Contistas de 2013. Lançou o seu 1º livro na 22ª Bienal internacional do livro de São Paulo: Mais dia menos dia, pela editora LP-books e o seu 2º livro, Dilatação e o seu 3º livro Heliotropia e o seu 4º livro A moça do sonho pelo clube de Autores. É Acadêmica correspondente da Academia de Letras e Artes de Fortaleza-ALAF, e Comendadora da Academia dos Cavaleiros de Cristóvão Colombo-ACCOL. É membro da ALB-Academia de Letras do Brasil/Seccional-Suíça e da mesma academia foi agraciada com a comenda Euclides da Cunha no grau de escritora imortal “Escrevo para exorcizar, para aceitar o passado e ir em busca de um futuro melhor.
Contato:
janacruzpoetisa21@gmail.com
Yan
Aquela tarde, enquanto o sol flamejava pela janela o garoto sonhava, sem mais nem menos criava asas, e de sua janela ganhava o mundo, não era difícil chegar as Antilhas a China a qualquer lugar da América e até o Japão.
Quando retornava para seu quarto, escondia o sorriso das descobertas, tinha medo que sua mãe ficasse preocupada e resolvesse deixar a janela fechada pra sempre, com seu pai, às vezes conversava sobre uma ou outra descoberta, e o pai sempre acha que se tratasse de algo que o garoto tinha visto pela televisão.
Há quatro anos Yan sofrera um acidente de moto, aproveitou que todos da casa estavam dormindo, desceu até a garagem, ligou a moto do seu pai e saiu com seus dezessete anos Yan estava atrás de uma liberdade maior, ou o que achava que fosse liberdade, acabou aprisionando Yan na cama para sempre.
Ao voltar de um passeio que deu pelas ruas quase vazias aquela madrugada, ele voltou, não queria que ninguém notasse que tinha saído, mas o que Yan não sabia é que aquele seria seu ultimo passeio de moto, pois ao chegar à distância de apenas três esquinas para chegar a sua casa, um motorista bêbado na contra mão, o atropelou, pela falta do capacete, Yan quase morreu.
Foram meses em coma, várias paradas cardíacas e uma constatação: Yan nunca mais andaria e nem mexeria novamente as suas mãos.
Seus pais ficaram desesperados, sem saber o que fazer com o carro que o pai já tinha começado a financiar para lhe dar como presente de dezoito anos, e os sonhos em que ele vivia divido, entre ser médico e salvar vidas e ser condutor de um grande boing?
Tudo ficou adormecido, protelado, revivido uma ou outra vez quando a mãe cismava de procurar na internet alguma forma de poder ajudar o filho a voltar a ser normal como era antes, ou gastar bastante dinheiro procurando por curandeiros e charlatões.
A assinatura de amor nas mangueiras da praça ligava o seu nome ao nome da primeira namorada, por um &, o infinito só seria para sempre por lá, pois logo que descobriu sobre o diagnóstico médico, Margô nunca mais apareceu para visitá-lo, seguiram a mesma rotina, o resto dos amigos, Antônio, Pedro, Jandira, Bruno, Carmô e Priscila.
Yan nunca reclamava claro que conversar com gente de sua idade fazia falta, tinha tanta coisa que ele gostaria de saber como tinha acabado, quem estava namorando quem, qual foi o resultado das partidas de futebol...
Com pena da solidão de Yan, os seus pais instalaram uma televisão lá no quarto, adaptaram um controle que funcionasse ao som da voz, quando estivesse cansado de assistir, ele só bastava dizer: - Desligar, que a TV desligava sozinha, e assim era o mesmo para ligar ou mudar os canais.
Muitas vezes Yan, presenciava sua mãe chorar, enquanto procurava tratar as escaras que apareciam pelo fato dele estar sempre na mesma posição, outras vezes percebia seus pais chorarem de longe, geralmente nas madrugadas silenciosas da casa.
Mas nada disso o entristecia, ele conversava sempre com seus pais, procurava acalmá-los e alegrá-los um pouco.
O tempo ia passando e os pais começaram a fazer as refeições no quarto de Yan, e viam televisão junto com ele, riam juntos, davam palpites sobre os programas de televisão, vibravam com o gol, ou quase gol, a mãe que já havia deixado o trabalho para se dedicar ao filho, recebeu uma nova proposta de trabalho, ela poderia trabalhar em casa mesmo, e foi instalado um computador e impressora no quarto de Yan, tudo que a mãe produzia, comentava com ele, que dava palpites certeiros e queria saber das repercussões das coisas lá fora.
Yan via os pais mais felizes, mais conformados com sua situação, mas foi aí que ele começou a entristecer...
Olhando pela janela adaptada do seu quarto, Yan via o sol flamejar, os céus o chamavam, era aquele o seu lugar, mas sentiria saudades dos pais, será que algum dia entenderiam?
Como todas as noites assistiram junto ao telejornal e moça da previsão do tempo falou que no dia seguinte, seria um dia incrível, de muito sol e muito calor.
Quando os seus pais foram dormir, Yan pediu que ficassem no quarto um pouco mais, pediu que eles os abraçassem, disse que os amava e adormeceu.
No sonho Yan abria os olhos e conseguia levantar da cama, foi até o espelho e viu que as suas mãos que também se moviam, viravam asas, longas e potentes asas, foi até a janela e voou, voou tão alto, tão alto, que não conseguiu mais voltar.
Ele pensou e agora?
Até que do nada, apareceu uma senhora, doce e muito bonita e disse que era por lá que ele iria ficar:
- Agora é aqui o seu lugar Yan, venha conhecer outros meninos e meninas passarinho.
Logo, logo, Yan se enturmou e quando o dia amanheceu ele já quase não lembrava nada, apenas uma saudade apertando o seu peito e ele nem sabia de que.
Ao levantar aquela manhã os pais de Yan entristeceram, encontraram seu corpo sem vida e com penas muitas penas ao seu redor, eles não souberam explicar o que era aquilo, nem os médicos ou mais experientes peritos, a morte de Yan, naquelas circunstâncias atiçava a curiosidade de toda a cidade, que por muitos e muitos anos comentavam sobre o menino que havia morrido dormindo e sorrindo e que para algum sonho voou.
Margô ainda hoje visita a pracinha da cidade, muitas décadas depois, e sempre que vai as mangueiras velhas, ainda toca no seu nome e o dele, ligados por um &, e não é atoa que um passarinho vem sempre pousar em seu ombro, ela conversa com o passarinho, aprendeu a falarpassarinhês, e as pessoas não a chamam de louca, nem ligam, afinal aquela é a cidade do menino que virou passarinho.
Janaina Cruz
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