Rogério Macedo de Oliveira
Nascido na cidade de São Carlos/SP, pseudônimo: Nélio Cefeu.
EX-MENINA
Sertão. Primavera de 1940.
Quando criança, Liberdade adorava correr pelas ruas de terra batida com seus amigos até se exaustar. Eram bons tempos aqueles, ao menos para ela que, filha de um casal de vendedores de rua, encontrava neste mesmo lugar algumas poucas migalhas de felicidade. O vestido de renda com o estampado em margaridas, já bastante gasto pelo tempo e uso excessivos, cobria um corpo pálido, porém jovial. Olhos azuis, despreocupados e ligeiramente curvados caracterizavam o olhar desta garota que, todas as noites, desfazia as mechas em seu cabelo negro para se deitar na rede amarrada junto a duas árvores mortas aos fundos da casa, de onde podia contemplar o céu por alguns instantes antes de se recolher.
Vida simples, mas feliz... QUANTA BABOSEIRA! Os pais de Liberdade jamais imaginariam que, de uns tempos para cá, sua filha nutria um profundo e crescente ódio pela vida que levavam. Nas ruas, encontrava poucos momentos de distração na companhia dos amigos - alguns com, talvez, um pouco mais de sorte do que ela -. Na calada na noite, os fundos da casa de Liberdade serviam de alento para todos os sentimentos desta garota -até mesmo os mais angustiantes-. Não se sabe se ela tinha escolha, mas, ao menos, era o que gostava de fazer: sentia-se bem ao alimentar maus pensamentos e não via complicações em agir assim.
Poderiam morrer, poderiam desaparecer. Não me importo com mais nada! Cansada de ter as estrelas e a lua cinzenta como confidentes, Liberdade entra em casa, fecha a porta de madeira da saída para os fundos e, andando sem pensar, vai ao seu quarto para escurecer seus pensamentos por mais uma noite, igual a todas as demais: entediante, inútil, sem vida...
Amanheceu. O pão visto sobre a mesa, igualmente amanhecido, é oferecido à Liberdade que, sem muita escolha, mastiga-o com dificuldade. O leite levemente aquecido ajuda-a a terminar de comer. Hora de ir para a escola. Hoje não quero, vou fazer qualquer coisa por aí e, talvez, volto na hora da saída. Ninguém vai descobrir. Sem dizer adeus aos pais, Liberdade sai de casa sem imaginar que nunca mais voltaria para lá.
Começo pela primeira estrada depois daquela porteira; ela leva pra fora desse lugar. Ansiosa, partiu. Lembrou-se da rua de terra batida onde brincava com os amigos,
mas logo se desfez destas memórias e seguiu. Com o dinheiro que, às escondidas, roubara de dentro da bíblia da mãe, comprou a boneca mais cara da loja. Que linda, agora é só minha. Já distante dos pais, da casa e da vida que sempre se recusara a aceitar, Liberdade sumiu na linha do horizonte. Do outro lado, alguém a esperava...
-Mas que gracinha de menina! Que faz sozinha aqui, bem no meio da estrada? Era evidente, mas Liberdade não havia pensado nisso antes de se aventurar. Uma garota de doze anos entregue à própria sorte em uma estrada é alvo fácil para qualquer pessoa, esteja ela bem intencionada ou não. A julgar pelo tom de voz e pela expressão do rosto do homem de meia idade que se mostrava diante dela, bom, poderia arriscar-me a dizer que algo não muito agradável aguardava aquela garota aventureira. Mãos grandes agarraram-lhe pelo braço antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa: era simplesmente impossível livrar-se daquele homem corpulento que, agora, poderia determinar seu destino. Olhos demoníacos fitavam o rosto da menina assustada, emudecida pelo desespero. Braços enormes empurram-na contra o chão. Seu frágil e pequeno corpo logo despenca pela força do impulso. Antes que pudesse pensar em se levantar e fugir, Liberdade já se via completamente imobilizada pelo peso do corpo do homem que se atirava ferozmente sobre ela.
Ela desejou gritar, porém inutilmente. Em um gesto brutal, aquele homem violentamente amordaça a garota usando a fita azul safira que ornamentava o cabelo da boneca que Liberdade comprara instantes antes de partir para longe de casa. Era impossível reagir àquela força que se impunha sobre ela. Lábios repugnantes a tocavam de modo animalesco, como cães famintos a suplicar por carne e ossos. Sofrimento, lágrimas, dor. Tudo escureceu. Ele foi embora; ela fora deixada ali mesmo, inerte sob a sombra de uma árvore. Liberdade acordou. Havia sangue impregnado ao vestido gasto e quase em retalhos. A lembrança do fato surgia como um clarão em sua mente. Queria negar o que recordava, mas era impossível. Atordoada, levantou-se e seguiu na direção em que havia parado. Descalça e a passos lentos, ela seguia meditativa sem saber para onde aquele mar de terra a levaria. Seus olhos, com expressão severa, não detinham mais os traços de uma garota. A boneca foi abandonada junto à árvore neste dia, assim como todo seu passado. Liberdade deixara a infância para sempre e, pela primeira vez, conhecia a real dor de estar viva. Boa sorte, ex-menina.
Rogério Macedo de Oliveira
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