Vítor Maciel Gonçalves
A manhã pacata e ensolarada na escola Sociedade do Aprendiz teve o silêncio interrompido pelo toque do sino que marcava o fim do intervalo e início do segundo período de aula. Em meio à desenfreada manada barulhenta de estudantes que voltavam às suas respectivas salas, estava um único que demonstrava autêntica vontade de o fazer, de semblante franzino, cabelos castanhos e olhar encantador. Esse é o garoto sobre o qual será relatado o porvir. O relógio marcava nove e quarenta quando a professora, de nome Janaina, entrou na sala quatrocentos e três para ministrar a disciplina de história, favorita de Moacir Cairu, aluno do terceiro período do ensino fundamental. O ano, para que haja uma compreensão mais transparente dos fatos aqui relatados, era dois mil e dezesseis passados do nascimento de Jesus Cristo, e a data de importância nacional. Hoje, há quinhentos e dezesseis anos, o país de Moacir fora descoberto.
A professora, além de amar sua disciplina, claro, tendo em vista que não era daquelas que simplesmente trabalha pelo dinheiro e vive vida medíocre de lamentações em constante desgosto pela profissão, tinha paixão inegável por romances e, por capricho do seu ser e não necessariamente por exigências da grade curricular, solicitara na aula passada aos alunos da sala quatrocentos e três que escrevessem um conto, com embasamento histórico, sobre a descoberta do país em que nasceram e, que provavelmente, viveriam e morreriam. Aqui alguns indivíduos mais criteriosos podem achar presunçosa a ideia do que foi há pouco dito, de que ninguém ali conheceria ou poria os pés em terras longínquas, que não respirariam ares além daquele que estavam ali respirando, mas, caso vissem o grau extremo de pobreza e miséria em que alunos, instituição, professora, cidade e país se encontram, pensariam duas vezes antes de questioná-la.
"Professora, posso ler meu conto hoje", perguntou Moacir, "Você só me dá orgulhos, sempre voluntário, quem dera fosse meu filho, leia" respondeu a professora. Em meio a risadas e deboches, o pequeno menino prodígio levantou do seu lugar, horizontalmente localizado na terceira fileira de carteiras, se contadas da esquerda para a direita e não da direita para a esquerda, pois nesse caso seria a quarta, o que permite concluir que a sala em questão é composta por sete filas, e em termos de orientação vertical, seu lugar era o primeiríssimo. Apesar de existirem estereótipos que classificam jovens que gostam de estudar e ainda sentam na primeira carteira como antissociais, esse não era o caso de Moacir, que tinha amigos até demais. O pobrezinho, figurativa e literalmente, era afetado simplesmente por problemas de vista, sendo míope e astigmata, e as economias que estava juntando eram ainda insuficientes para que pudesse ir no oftalmologista e muito menos comprar um par de óculos. Subiu ao tablado, sentindo-se como um prefeito ou presidente prestes a dar um discurso importante, e começou a contar sua história, não tão acertada em relação ao que realmente ocorreu por ali no passado, visto que se embasa principalmente no sentimento romântico de um mero aluno do terceiro ano, que, apesar de muito inteligente, era apenas uma criança sonhadora, mas ainda suficientemente fidedigna do descobrimento de seu país.
"Hoje completam-se setenta e oito dias que o indivíduo, capitão do navio que em breve descobriria novas terras, está em alto mar. Olhava o oceano sendo sobrevoado por algumas gaivotas dançantes encostado no mastro central, quando se lembrou da esposa e filhos que deixara para trás com um misto de alegria e tristeza, já que apesar de estar perseguindo seus sonhos, estava longe dos seus entes queridos.
Ele já estava, pois, começando a ficar realmente desolado pela aparente demora, 'Quanto tempo é preciso para chegar do outro lado mesmo?', perguntou ele ao navegador do navio, homem de intelecto inquestionável e grande conhecedor da arte de navegação, tendo mesmo estudado em conceituadas universidades para adquirir tal capacitação, 'Segundo relatos de outros aventureiros que tiveram sucesso na empreitada de cruzar o Atlântico, especialmente Cristóvão Colombo, sessenta dias, ou dois meses, como preferir', disse o estudioso. O capitão, mesmo ruim em matemática, aprendera bem a subtrair e somar, sentindo mesmo dificuldades em dividir e multiplicar e, assim, percebeu instantaneamente que dezoito dias por demais haviam passado e sua impaciência, portanto, era justificável. A tarde passou lentamente com o barulho constante e ao mesmo tempo apaziguador do mar sobre o casco da embarcação e, quando o sol dormiu, esvaiu-se, o capitão retirou-se para sua cabine pessoal e pôs-se também a dormir. Ele sonhava com a mulher amada quando precisamente às cinco e quarenta e dois da manhã foi acordado ao som de 'Terra à vista'.
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Mostra Ecos 5ª edição: Brasil
Short StoryÉ difícil definir o que é ser brasileiro. Alguns poetas transformaram o Brasil em uma aquarela, da qual a realidade destaca o vermelho, de sangue e de paixão.