Capítulo 17

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Era bem cedo e Antônio se preparava para ir ao escritório e assim poder também agendar o exame de DNA, quando ouviu baterem à porta. Ansioso, ele foi atender na esperança de que fosse Amanda. Precisava saber como ela estava e o que pensava de tudo aquilo. Embora ainda se sentisse mal por tudo o que passaram, algo lhe dizia que poderia sim consertar tudo aquilo. Tanto Amanda quanto ele poderiam ser vítimas das circunstâncias e seria justo que tivessem uma segunda chance.

— Senhor Antônio? — questionou o homem bem-vestido, assim que a porta foi aberta.

— Sim. — Ele o olhou indiferente, mas com a educação de sempre.

— O senhor precisa me acompanhar até a delegacia. — A surpresa ficou estampada no rosto de Antônio, mas o homem não se importou e permaneceu com o mesmo semblante de quando chegara.

— Pode me adiantar o motivo de eu ter que comparecer à delegacia uma hora dessas e ainda sendo escoltado?

— O ex-marido de sua esposa foi encontrado morto na manhã de hoje. Seu corpo foi queimado dentro do carro onde ele estava. — A informação veio sem qualquer preparo ou emoção. O homem parecia acostumado a dar notícias trágicas.

— Como assim? — A informação deixou Antônio perplexo. Breno estava morto e de forma trágica. — E o que eu tenho a ver com isso?

— Ele fez um Boletim de Ocorrência contra o senhor dias atrás, alegando que estava sendo ameaçado de morte. Isso somado a algumas outras informações, torna o senhor um suspeito até que se prove o contrário.

— Isso não faz sentido, policial. Eu nunca o ameacei. — Antônio não sabia o que dizer. Estava chocado com a notícia e mais ainda com o fato de Breno ter feito uma queixa contra ele.

— Não o estamos considerando o assassino, senhor Antônio. Precisamos analisar todas as possibilidades e o senhor é uma delas. Ainda não sabemos se foi suicídio ou não. A princípio faremos apenas algumas preventivas, nada mais.

— Eu entendo o que está fazendo, policial, não se preocupe. — A intenção de Antônio era resolver aquele incidente, por isso não dificultaria nada. Não tinha nada a ver com aquilo, portanto não havia motivos para dificultar o andamento das investigações.

— O senhor pode ir em seu carro e caso queira chamar seu advogado fique à vontade — orientou o policial.

— Não acredito que será necessário — disse seguro.

— Eu seguirei logo atrás. Mas respeitando certa distância para não lhe causar desconforto. Preciso estar junto ao senhor quando chegar a delegacia — informou o militar mais amistoso.

— Ótimo! — concordou enquanto ia pegar as chaves sobre a mesa de centro na sala.

Durante o percurso, Antônio pensava sobre os últimos acontecimentos. Sua vida não estava nada boa. Havia uma grande barreira entre ele e a mulher que amava. Logo em seguida surge um filho que nem imaginava que existia e agora estava sendo acusado de assassinato. Era muita coisa ao mesmo tempo. Precisaria ter paciência e boa vontade para passar por cima daquelas pedras. Mas não seria fácil, principalmente porque a cada instante tinha a nítida impressão de que Amanda não estaria lá apoiando-o como sempre fizera.

Antônio chegou ao estacionamento e, após sair do carro, aguardou o policial, que logo o encontrou e seguiram para o interior da delegacia.

— Delegado Araújo, o senhor Antônio está aqui. — O homem cumprimentou-o sem muitas formalidades e o indicou o assento.

— Em primeiro lugar, agradecemos por sua apresentação espontânea e queremos lhe fazer algumas perguntas, Antônio. — O delegado remexia em alguns papéis sobre a mesa enquanto falava. — Como já deve ser de seu conhecimento, o ex-marido da Amanda foi encontrado morto. Seu corpo foi queimado junto ao carro e pelas evidências foi assassinato.

— Isso é certo? — Antônio perguntou, intrigado. Se lhe dissessem apenas que ele foi encontrado carbonizado não seria surpresa para ele. O ex-marido de Amanda vivia bêbado e poderia ter causado um curto no carro pela sua falta de responsabilidade.

— Sim. Ele levou um tiro na cabeça e tudo indica que foi naquele mesmo lugar. O senhor Breno foi encontrado no meio de um canavial em uma propriedade rural. — Antônio ouvia a tudo calado. — Hoje pela manhã, alguns funcionários viram ao longe uma pequena nuvem negra subindo no meio da plantação e com medo de ser um incêndio foram rapidamente para o local, mas ao chegarem lá encontraram o carro já destruído com um corpo dentro.

— E como souberam se tratar do ex-marido de minha esposa? — O homem ergueu uma sobrancelha enquanto olhava para ele.

— Haviam documentos com ele que ficaram preservados o suficiente. Além de o carro ser de sua propriedade.

— Isso é o suficiente para afirmarem ser ele? — O delegado parecia não gostar do questionamento de Antônio.

— Embora haja diversas evidências, não é o suficiente e por isso estamos investigando a fundo. E precisarei mantê-lo aqui até tudo se confirmar, já que é o principal suspeito. — Mais uma vez, Antônio foi pego de surpresa.

— Como assim? Não tem provas contra mim e pretende me manter preso. É isso mesmo? — Ele começava a se preocupar com aquela situação.

— Temos uma testemunha que afirma ter visto um homem com suas características pouco tempo antes do ocorrido na casa da vítima, onde trocaram agressões verbais e ela alega tê-lo ouvido ameaçar o senhor Breno. — Antônio ouvia incrédulo a informação. — Segundo a testemunha que reside no local, tempos depois um carro, que já confirmamos ser igual ao seu, passou diversas vezes nas proximidades. — Quantos absurdos, pensava Antônio.

— Primeiro, eu nunca estive na residência desse senhor. Segundo, o meu carro é um veículo popular e há vários iguais a ele na cidade. Essas informações são suficientes para me considerar um assassino?

— O senhor não foi considerado nada ainda. Trabalhamos com evidências, com fatos e não concluímos nada para acusá-lo ou absolvê-lo. Por garantia, o manteremos aqui até que tenhamos maiores evidências.

— Não podem fazer isso sem provas contra mim. — Antônio terminava de dizer quando a porta se abriu e um policial chamou o delegado, que o acompanhou prontamente. O que está acontecendo aqui? Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto, pensou enquanto estava sozinho.

— Bem, Antônio, acabei de saber que a testemunha o reconheceu como o homem que trocou agressões com a vítima.

— Quem é esse indivíduo que está alegando uma tolice dessas? Quase toda a cidade sabe que Breno colhia desafetos por sua maneira de viver. — Quis saber mesmo certo de que isso jamais lhe seria revelado.

— Não podemos dar essa informação. Sugiro que o senhor chame seu advogado amanhã no primeiro horário.

— Amanhã? Vou chamá-lo agora mesmo. — Quando pegou o telefone para fazer a chamada, o delegado o interrompeu.

— Não daremos sequência a essa questão agora, Antônio. De uma forma ou de outra, não podemos resolver nada agora. Você ficará em uma cela individual, mas terá que permanecer aqui.

— Está havendo um grande engano aqui. — Antônio tentava manter-se calmo, mas era visível sua irritação com tudo aquilo.

— Preciso fazer cumprir a lei. Você fica! Se precisar fazer uma ligação esteja à vontade. — O homem se afastou e Antônio pegou o celular, ainda incrédulo.



Muito Além das aparências - Livro II da Série  AparênciasOnde histórias criam vida. Descubra agora