Capítulo 37 - O tempo fechou!

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Eu andava lado a lado com André pela rua, sem trocar uma palavra com ele. Fiquei com receio de tocar em algum assunto íntimo e parecer intrometida. Mas o fato de ele estar claramente incomodado com algo, me deixava mais incomodada ainda.

Não era tarde e, embora o tempo estivesse fechado, eu não sentia que o ar que roçava a minha pele era frio. A rua tinha uma boa iluminação e eu via muita gente passeando por ali. Havia casais, crianças, velhinhos e cachorros domésticos por toda parte.

André chegou mais perto de mim e cruzou nossas mãos. Aquilo era uma das coisas mais confortantes dentre todas as coisas.

Ele estava tão lindo. Seu cabelo caía sobre os olhos como da primeira vez que o vi, usava uma camisa azul escuro soltinha de manga e uma bermuda creme, além dos mocassins marrons. Era agradável ficar observando-o. Só que aquele silêncio me matava, então eu tinha que começar um assunto, certo? Sim. Acho que o açúcar já estava saindo do meu sangue para eu ter ficado tão calada de repente, mas vamos lá.

- Ahn... Você gosta de pêra? - não, idiota, não era isso. Não era isso mesmo que eu tinha em mente.

- Não sou fã, já que não tem gosto de nada - ele responde sem emoção.

- Pois é. Eu também não curto muito - e o silêncio pairou novamente. Parecia mais um primeiro encontro, onde ninguém sabia o que falar.

- Essa foi a sua tentativa de puxar assunto? - André me olha prendendo o riso e eu abaixo a cabeça.

- Eu iria perguntar sobre a melancia, mas preferi comentar algo novo.

- Ah, claro - seu sorriso agora estava ali.

- Por que estamos nesse clima? Você está tão caladão hoje - ele só mexeu os ombros.

Quer saber? Foda-se se vou ser intrometida. Na verdade, eu sabia que não seria intromissão, tínhamos intimidade o suficiente e já falamos sobre esse assunto antes. Então que receio era aquele? Continuei a falar:

- Você brigou com seu pai? Ele falou alguma coisa ruim pra você? Como está a relação de vocês? Você vai ficar lá por quanto tempo ainda? - acho que exagerei na quantidade de perguntas.

- Nossa! Calma!

É, exagerei. André ficou rindo de mim. Que bom que ele se diverte. Só que seus olhos não brilhavam como de costume, então presumi que ele não estava contente.

- Desculpa! Você me deixa preocupada - digo, mordendo a parte de dentro da minha bochecha. Ele se mantém em silêncio por longos segundos.

Andávamos devagar e as pessoas começaram a rarear naquela parte da rua.

- Foi a conversa mais franca que já tivemos - ele diz de repente, obviamente se referindo ao pai.

- E foi bom?

- Foi melhor do que o silêncio de todos esses anos - André parou de andar e me puxou para sentarmos num banco. - A única vez que eu ouvi sair de sua boca o que ele sentia de verdade, foi há alguns dias e por telefone.

- Sei... Aquele dia.

- É. Mas ali ele despejou tudo sem se importar com o que eu fosse sentir. Dessa vez foi diferente. Não que a opinião dele tenha mudado. Ele continua achando que sou o responsável por... Por ter... Por aquilo - o garoto engoliu em seco e se afundou no banco. - Você sabe.

- Sim e você sabe o que eu penso - ele assentiu com a cabeça, mas sem me olhar.

- Dessa vez ele se sentou comigo e falou calmamente, com essas palavras: "Eu olho pra você e te imagino matando-a. Não tenho a intenção de te culpar pelo que aconteceu com ela, mas esse sentimento é mais forte do que eu". Sei que nunca vou esquecer o dia de hoje justamente por conta dessas palavras.

O Verão de HELENAOnde histórias criam vida. Descubra agora