Capítulo IV

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João devia estar muito exausto daquele primeiro dia de Brasil, pois dormiu e acordou somente no dia seguinte, mais de 12 horas depois, pela manhã bem cedo. Sentou-se na cama para colocar os sapatos e pensou consigo mesmo: – Hoje começa o melhor dia da minha vida, o início de uma vida nova. – Estava tão empolgado que quando levantou da cama fez questão de dizer em voz alta:

– Hoje será o melhor dia de minha vida.

E então pôs-se a descer, bebeu água, foi à privada, cumprimentou Camille e saiu para investigar um pouco mais daquela cidade ou ao menos dos arredores do Regresso Relutante. Na ânsia de ver a vida acabou saindo sem comer nada na hospedaria, e, como estava faminto, logo que passou por uma negra vendendo frutas fez questão de comprar algo para comer. Primeiramente ficou impressionado com a variedade de frutos diferentes que havia para ser consumidos ainda frescos, ali mesmo naquele tablado, coisa inimaginável em Portugal. Era tamanha variedade de cores, formas e dimensões que João ficou indeciso, e para dificultar ainda mais a escolha, ele não conhecia quase nenhuma. No entanto uma delas se destacava por sua beleza e aparente suculência. Era um fruto amarelo e vermelho, o qual ele perguntou à negra como se chamava, ao que ela respondeu um nome engraçado que ele memorizaria até seus últimos dias de vida: manga. Aquela viria a ser a sua fruta preferida para sempre. Porém, mesmo que a tenha achado muito bonita e apetitosa, não seria daquela vez que ele a experimentaria; a manga era grande por demais e não parecia ser a escolha ideal para quem vai sair comento e se lambuzando com as mãos pela rua. Assim, a fruta da vez seriam umas bolinhas pretas conhecidas como jabuticaba que ele também adorou. E para aproveitar que estava de bom humor e disposto a experimentar coisas novas, na indecisão comprou também algumas bananas e saiu comendo e observando a rotina. Nunca havia comido a tal da banana antes, e também a achou incrivelmente deliciosa. O Brasil estava repleto de boas surpresas.

Distraído por tantas novidades acabou caminhando por um bom tempo e indo mais longe do que tinha planejado. A um certo momento já não sabia mais direito por onde andava. Sua única certeza era de que a Rua do Ouvidor estava lá atrás, bem distante. Caminhou a manhã inteira praticamente, e o que para alguns seria estafante, para ele era revigorante. Eram 10 horas quando decidiu dar meia volta, pois ainda havia o caminho de retorno que seria igualmente longo e demorado. No caminho passou pela mesma taberna do dia anterior e deu algumas olhadelas para o interior, mas desta vez não notara nada de diferente, nem um bochicho qualquer.

Na chegada à hospedaria, Menon logo o avisou que o almoço já estava sendo servido e que ele podia se juntar aos outros hóspedes para fazer a refeição. Ao passar à cozinha João conheceu finalmente seus colegas de pensionato, ou ao menos alguns deles. Sentado na ponta da mesa, distante dos demais, havia um senhor mais velho que aparentava ter em torno de 50 anos, porém bastante judiado. Este senhor almoçava sozinho fazendo questão de não se enturmar com ninguém. A primeira conclusão que João tirara dele era que parecia ser de pouca conversa e poucos amigos. Num segundo relance ele fitou mais dois hóspedes que sentavam na outra ponta da mesa e conversavam entre si. Um deles era negro, o que chamou bastante sua atenção pelo fato de estar ali, circulando livremente e bem vestido, afinal, até onde sabia, Menon não possuía nenhum cativo aos seus serviços. Estas questões ainda eram muito complexas para ele.

Na hora em que João entrou na sala de refeições, todos, exceto o homem mais velho pararam o que estavam fazendo, fosse comendo ou conversando, e levantaram a cabeça do prato de sopa para olhar em direção à porta analisando o novo inquilino, que para eles despertava tanta curiosidade quanto eles despertavam em João.

Antes que um momento de silêncio desagradável pudesse se instaurar e causar uma sensação de desconforto para alguém, Sra. Menon foi logo entrando atrás de João e falando:

O Preço De Se Tornar RodrigoOnde histórias criam vida. Descubra agora