Deviam ser em torno de 15 horas quando o navio fora finalmente liberado das inspeções e o cônego Benedito pode descer à terra firme. Até aquela ocasião não havia feito mais do que uma parca refeição enquanto esperava pela liberação. Estranho, é verdade, mas este era o procedimento padrão em dias de desembarque, e nem mesmo quem tinha adquirido uma travessia em alta classe, assim como ele, tinha o direito a uma refeição farta. Por causa disso ele estava faminto e precisava chegar à matriz do Rio de Janeiro antes que o sol se pusesse ou ao menos a tempo de pegar a última refeição do dia; caso não conseguisse, não tinha certeza se praticariam com ele a caridade cristã que lhe era devida segundo os evangelhos que pregava, acreditava e todas as vezes que podia, ele próprio praticava.
As vestes sacerdotais muito lhe incomodavam sob o forte sol daquela tarde, ainda mais quando ele, por extrema necessidade, precisava apressar o passo e caminhar como se estivesse usando nada mais do que verdadeiros trajes esportivos. Diferentemente de João, ou de melhor, de Rodrigo, como o padre o conhecia; Benedito não tinha à sua disposição a calma necessária que desejava para observar com mais cuidado aquela gente e a cidade em si, em um primeiro momento. Contudo, a cúria à qual deveria se dirigir foi mais fácil de ser encontrada do que podia imaginar.
Após caminhar poucos metros em terra firme, Benedito olhou ao seu redor, não procurando algo em específico, mas apenas para se orientar melhor naquele local totalmente desconhecido, e enxergou a imponente construção da Diocese de São Sebastião do Rio de Janeiro destacando-se no horizonte em um plano mais elevado do que o restante. Com tal disposição, sua visualização era iminente. Por um momento ele até se perguntou como não havia a avistado enquanto ainda estava embarcado, porém dificilmente conseguiria vê-la, já que, de onde fora lançada a âncora, um morro – que circundava boa parte da baía – encobria tudo.
É claro que ninguém havia o explicado como encontrar o mosteiro ou até mesmo como ela se pareceria, mas assim que viu aquele prédio, o religioso soube que era para lá que deveria rumar e tomar as rédeas de seu destino.
– Preciso pôr-me a andar. Embora daqui possa parecer perto, a distância a olho nu engana, as pernas que o digam. Para piorar, se eu não andar com pressa, pode faltar-me tempo para chegar antes das obrigações noturnas e do recolhimento dos irmãos, sem contar o jantar, que não posso perder. Não sei se aguentaria esperar o desjejum de amanhã, creio que não sou tão forte quanto Jeosafá, afinal de contas – disse a si mesmo com a calma e um senso de humor que não se deixavam abalar nem mesmo por uma situação tão desanimadora como aquela. Dali para a frente caminharia um longo percurso ouvindo somente a fala de seu estômago faminto, suplicando por alimento.
Sem mais delongas partiu tentando adivinhar o caminho que levaria àquela suntuosa construção, tão grande que, mesmo de longe, aparentava ser uma das maiores edificações que já havia visto de perto. No caminho, atravessou algumas vielas que pensava ser a direção correta e espantou-se com o fato de como podia uma sede de um império, em que residia um imperador e sua família, onde por muitas vezes eles próprios passavam em suas montarias ou em seus coches, ter ruas tão sujas e mal calçadas, isto é, quando calçadas, como ele relataria em suas memórias, mais tarde. Prosseguindo com afinco, não demorou a cair em uma rua de chão batido que iria levar à artéria principal, e que, por sua vez, finalmente o conduziria aos portões da Diocese de São Sebastião e ao mosteiro de São Cristóvão. Ao todo demorou cerca de duas horas no trajeto, e concluiu, estafado, que, realmente, lá do cais ou da praça onde enxergou pela primeira vez a diocese, não poderia afirmar que o caminho seria tão longo.
No momento de sua chegada já se passavam das 17 horas e bem como Benedito imaginara, seus companheiros já estavam se recolhendo aos seus respectivos aposentos e se preparando para as obrigações finais do dia. Sem poder perder mais um segundo sequer, usou da força e conseguiu movimentar o altíssimo e pesado portão que o separava de seu destino. Com mais alguns passos venceu os poucos metros que o afastava das imponentes portas de madeira, nobilíssimas e ricamente trabalhadas e que em um primeiro contato já dava a ideia da riqueza que o esperava assim que transpusesse o pórtico. Entalhada na madeira de lei estava a parábola do bom samaritano de um lado e a do filho pródigo de outro. Após alguns momentos iniciais de contemplação daquelas verdadeiras obras de arte, Benedito, muito emocionado, aproximou-se e deu algumas puxadas no sino para que lhe recebessem... esperou alguns minutos e, como não obteve resposta, tornou a agitar o sino... novamente não surtira o efeito desejado; puxou a corda com mais força e logo em seguida escutou uma voz baixinha respondendo, mas que ia aumentando rapidamente à medida que falava, como se o interlocutor andasse a passos largos em sua direção:
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O Preço De Se Tornar Rodrigo
Ficción históricaQuando não se tem nada a perder, por que não arriscar? Afinal, para quem nada tem, qualquer pouco que for alcançado já será muito. Este é o pensamento de João, um jovem português que, no século XIX, sem nada que o segurasse em sua terra, resolve par...