Capítulo XVI

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Ao adentrar no quarto João ficara tão maravilhado com o ambiente quanto Benedito havia ficado da primeira vez que entrara ali. O quadro, novamente, foi o maior chamariz ao visitante, depois, com certeza, a quantidade de livros, o que somente aumentava e corroborava a impressão de real sapiência do bispo. Desnecessário dizer que João notara tudo aquilo que Benedito notara anteriormente, é claro, como as chamativas paredes robustas, e, foi ainda mais longe na observação: identificou que bem no centro do quarto escapava por debaixo do tapete – que não era grande o suficiente para tapar tudo – uma abertura no assoalho que parecia ser um esconderijo emergencial ou até mesmo uma rota de fuga para algum lugar bem longe dali.

O bispo, vendo que João, maravilhado, olhava para todos os lados e todos os objetos com os olhos de uma criança que vê um brinquedo novo, deixou ele ali, em estado de contemplação, por alguns segundos. Primeiramente ocupou-se em sentar descansadamente em sua poltrona, cruzou as mãos sobre o colo, observou o rapaz por mais alguns instantes e então, quando achou que já era hora, deu prosseguimento à reunião puxando-o do mundo das imaginações:

– Sente-se, por favor, senhor Rodrigo, se é amigo de Benedito, sei que é de extrema confiança e por isso já ouso chamá-lo de meu próprio amigo. Benedito é um ótimo garoto e acredito piamente naquele ensinamento que prega que julguemos um homem pelas suas amizades. E depois de conhecer o menino e perceber que não consigo ter uma opinião menos confiante ele, já poderia colocar minha mão no fogo por seus amigos, principalmente você, o tão bem falado Rodrigo português.

– Muito obrigado D. Gabriel. Agora vejo que realmente é tudo verdade o que dizem sobre sua gentileza e amabilidade com os demais. Somente em estar em sua presença e saber que concedeu alguns minutinhos em sua agenda concorrida para minhas súplicas já é o suficiente para que eu fique lisonjeado; saber que me considera como um amigo então, fico imensamente honrado. Não, na verdade deve ter uma palavra ainda mais apropriada para o que sinto agora, mas como não tive a oportunidade de ocupar os bancos escolares, meu linguajar não é digno de sua pessoa – mostrar respeito e ser humilde e parecer judiado pela vida, das primeiras coisas para quem deseja pedir um favor a outrem. – E em tempo, Bispo, eu que tenho sorte por Deus ter colocado Benedito, e, consequentemente, o senhor em meu caminho. Saí desamparado de Portugal e agora me vejo com almas tão caridosas dispostas a ajudar-me de todas as maneiras.

– Pode ter certeza que nada é em vão Rodrigo... nada é em vão. Deus colocou você em meu caminho e eu no seu por algum motivo que ainda vamos descobrir. Há algum papel que teremos de desempenhar na vida um do outro. Assim como nossas ligações com Benedito e com todos aqueles que você já conheceu e se aproximou desde que chegou a este novo mundo.

João apenas consentia sobre os desígnios divinos com um gesto de cabeça enquanto escutava tudo, palavra por palavra, com muita atenção. D. Gabriel, do outro lado, que havia sentado exatamente no mesmo lugar no qual havia tido a conversa com Benedito, dias atrás, continuava:

– Mas então, sei que deve estar ansioso por minha ajuda, correto? Por que não me conta quais são seus medos e no que eu poderia ser-lhe útil, ou melhor, no que eu ser-lhe-ei útil, pois hoje o senhor sai daqui, com toda certeza, e dou-lhe minha palavra nisto, com um futuro assinalado.

Obviamente que o religioso não chegara ao ponto em que chegar sem algum tipo de malícia no coração. Muito esperto que era, antes de colocar para fora tudo o que sabia por ter ouvido dizer pela boca do jovem pároco, resolveu testar o rapaz e ver em que ponto a história contada por Benedito poderia desencontrar-se da que estava prestes a ouvir. Assim sendo, preparou-se e ajeitou-se no estofado para ouvir a versão de João, analisá-la e pegar suas possíveis falhas. Se isso ocorresse João iria ter o desprazer de ver como age um homem da fé quando quer punir alguém; não com punições religiosas ou até mesmo físicas, mas aquelas punições morais que tem o poder de fazer o seu alvo se sentir o pior dos homens sobre a Terra.

O Preço De Se Tornar RodrigoOnde histórias criam vida. Descubra agora