Somente no dia do tão afamado baile da corte foi que João tomara conhecimento das reais proporções e da magnitude do evento. Durante os dias que antecederam a data, ficou impressionado do tanto que ouviu falar daquele evento pela cidade e ver como as pessoas, independente às diferenças de classe, cor ou diferença social, esperavam igualmente ansiosas pela ocasião. Naqueles dias que sucederam ao seu encontro com o Vereador e que ele se pusera a seguir as indicações de seu patrão de vestir-se melhor e comprar novas roupas, ele adentrara em diversas lojas sofisticadas presentes na Rua 1º de Março. Em cada uma delas, fosse frequentada pela elite ou por populares, os boatos eram sempre os mesmos: o tal baile. As falas que João escutava por aí davam conta, inclusive, de que era possível a presença surpresa de algum membro da família real no evento. E isto despertava ainda mais a curiosidade sobre a data, aumentava ainda mais o fascínio popular, principalmente das classes mais baixas da população, que via aquilo de tão longe, com uma áurea de sagrado, de intocável e inacessível. Sempre atento aos detalhes notou que quando os vendedores e alfaiates ligavam os fatos e percebiam que ele se produzia – e muitas vezes João fazia questão de deixar isso bem claro – para nada, mais nada menos, do que o jantar oferecido aos germânicos, a atenção dispensada a ele era exageradamente maior, como se aquela roupa que ele fosse vestir fosse a própria presença do costureiro no salão de danças. Com Camille não era diferente, de tão entusiasta deste tipo de acontecimento que era, fazia diariamente a contagem regressiva dos dias, além das inúmeras orações aos seus santos e as intermináveis velas que nunca deixavam seu altarzinho particular sem brilho, tudo para que, com ajuda divina, nada saísse errado.
Camille já havia se empolgado com tantos outros bailes reais que já havia perdido as contas, mas desta vez ela estava ainda mais animada com os preparos para a festividade, pois naquela semana que antecedia o evento João lhe explicara que ele estaria presente representando o Regresso Relutante. Mais uma vez a francesa foi a peça principal para que tudo desse certo para o rapaz. Quando João contou que participaria do evento sentiu-se importante – pelo menos para Camille – ao passar-lhe todas as informações privilegiadas que havia ouvido pelo vereador, Rosa ou Benedito. O problema era que como sempre, fora a francesa quem lhe deu uma aula sobre a cerimônia, mostrando-se mais conhecedora do assunto do que ele e sanando diversas dúvidas que tinha. Além disso, Camille o ajudaria com a logística especial que a ocasião pedia: Ele precisava vestir-se bem, e mesmo tendo dezenas de novas vestimentas, sem ela seria praticamente impossível para um rapaz que atravessou o oceano com não mais que 2 mudas de roupa escolher o que vestir em um tipo de baile que ele nunca havia nem passado perto.
Enfim, após tanta expectativa e preparos – ambos mais por parte de Camille do que de João – era chegado o grande dia. Naquela manhã, preparado e bem vestido, quando ele desceu para o café da manhã, sua senhoria, sem sombra de dúvidas, mostrava-se mais animada do que o próprio rapaz para com a festividade de mais à noite. Na dita refeição só ela falava, e, só era permitido falar sobre isso.
– Você vai adorar João. Claro que eu não sei como será, pois nunca fui em algo tão sofisticado como um baile de boas-vindas real, mas posso garantir-lhe uma coisa: tais tipos de bailes são memoráveis. Quem presencia diz não esquecer nunca mais, e as companhias da vez, os germânicos, garanto-lhe que são pessoas boas e educadas, pois convivi com muito deles quando vivia, ainda moça, na França. São um povo de belas faces, porém parecem sempre ser frios e distantes. Você pode imaginar que não deu muito certo com essa daqui, não é mesmo? – e soltou aquela risada inconfundível.
– Se você diz isso, sinto-me mais confiante quanto às pessoas de hoje à noite. De fato, também convivi com alguns bávaros e silésios. Todos marujos, mas como bem pode imaginar, estes eram duros e carrancudos. De educados e belas faces não havia nenhum.
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O Preço De Se Tornar Rodrigo
Historische RomaneQuando não se tem nada a perder, por que não arriscar? Afinal, para quem nada tem, qualquer pouco que for alcançado já será muito. Este é o pensamento de João, um jovem português que, no século XIX, sem nada que o segurasse em sua terra, resolve par...