Capítulo XXXIV

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Pulemos a parte onde, costumeiramente descrevemos João acordando e fazendo o ritual da manhã, inclusive conversando com Menon, e comecemos nossa descrição no momento em que nos importa de fato: Quando do caminho ao encontro com o Vereador.

João caminhava leve. Estava descansado, e não apenas fisicamente, mas sim, espiritualmente. João estava de alma lavada. Nada melhor do que aquele empurrão do destino que se apesentava em sua vida transmutado na necessidade de impressionar o pai de Hage, na necessidade de mostrar-se digno a desposar sua única filha mulher. Se essa jogado do destino, antes estava lá para dar-lhe medo, agora era para convencê-lo de que, sem sombra de dúvidas, estava pronto para atuar no que fosse necessário ao vereador, naquilo que fosse necessário à sua ascensão na carreira política e, obviamente, naquilo que fosse necessário para torna-lo digno de colocar um anel em tão bela mão. Hoje, aliás, ele decidiu que iria dizer ao seu senhor que tinha tomado tal decisão, não somente a de que cumpriria a missão dada com louvor, mas sim a decisão de aceitar seus conselhos e seguir seus passos na vida pública.

A carta que ele se esmerara tanto para redigir na noite passada fora despachada tão logo ele pôs o pé na rua e encontrou um menino de recados. A persuasão não poderia ter sido feita de outro modo: A primeira preocupação tomada por ele foi deixar bastante claro que o serviço seria prestado para seu senhor, o Vereador Campos de Siqueira e assim garantir prioridade na entrega. Somente depois disso foi que ele se preocupou em passar o destino da correspondência. E para não restarem dúvidas instruiu bem – e mais de uma vez – o menino sobre onde ficava o Hotel do Imperador – como se precisasse, já que, daqueles 2, o mais perdido pelas artérias da cidade era ele e não o molecote. Para finalizar dera-lhe também uns trocados a mais do que fora pedido, tudo para garantir celeridade e exclusividade em sua demanda. – Parece que sei mesmo como lidar com as negociações. Darei um bom político. – Pronto, agora sim podia tomar seu rumo principal.

João flutuava pelas ruas, tinha um destino a alcançar e nada tiraria seu foco naquela manhã, nem mesmo os negros-tigre que lotavam as estradas da corte desde cedo. Amaldiçoados em seu destino e odiosos de sua sorte, espalhavam uma morrinha que impregnava a cidade nas primeiras horas do dia, mas que ele, na elevação em que estava, nem era afetado. Nem as gritarias das quitandeiras, alfaiates, sapateiros, o trote dos cavalos, as charretes estalando pelas ruas irregulares, os gritos dos homens da lei atrás de um capoeira, etc. nada lhe desviava o foco e roubava sua atenção. Por mais que, aparentemente, sempre esbanjasse igual confiança, hoje seu semblante exibia algo a mais. E como em um último desafio do destino, nem mesmo a face carrancuda de Rosa no despertar do dia pôde minar sua determinação. Aquele era, de fato, o seu dia.

– Bom dia, Rosa. Tenho uma reunião com o Vereador nesta manhã. Ele já chegou? Posso entrar?

– Bom dia Rodrigo. – disse ela sendo pega de surpresa – Bem, ele já chegou, mas não me disse nada deste compromisso agendado com o senhor. Eu vou avisá-lo que está aqui e perguntar se pode recebê-lo.

– Não, não se incomode com isto, – respondeu João antes mesmo de Rosa fazer o movimento para levantar – eu mesmo anuncio-me e faço as devidas honras.

Enquanto ele seguia em direção à porta, Rosa apenas o acompanhava com os olhos e de boca aberta. Queria, mas não conseguia falar nada frente àquele – em sua visão – ato grosseiro do rapaz. À porta, João fizera exatamente o mesmo código que Rosa fazia toda vez que se dirigia ao escritório do Vereador. Eram 2 batidas rápidas e uma espera de uns 5 segundos para então entrar. João havia memorizado este protocolo por ver ela repeti-lo por não mais do que 3 vezes e então, supô-lo ser a regra. Agora já fazia exatamente da mesma maneira que ela.

O Preço De Se Tornar RodrigoOnde histórias criam vida. Descubra agora