Conto Dois
SOMBRAS E RELÂMPAGOS
Marcos Vinícius Santos de Melo
"...e o mestiço virá tomado de fúria e rancor e em suas asas trará sangue e destruição. Haverão gritos e desespero e a floresta dos Éons arderá."
Vizzitel, Antigo Profeta Éon
Estava escuro. O vento das cordilheiras soprava com força. Nuvens tão negras quanto a noite que se fazia pairavam sobre o vale, castigando-o de forma constante e permanente com poderosas tempestades de raios. Aquele local inóspito, fadado a ser eternamente assolado desde tempos imemoráveis por uma das mais perigosas forças da natureza, ficou conhecido por todos como Vale da Tormenta.
No centro dos entremontes, no pico da montanha mais alta, as intempéries eram ainda mais severas do que nos demais pontos do vasto território rochoso, e justamente ali, em meio ao coração daquele anuviamento caliginoso, havia algo mais que cortava a negritude da noite além das majestosas descargas provindas do céu.
Naquele solo áspero, duas figuras se digladiavam.
Um dos combatentes trajava calças escuras prendidas por um cinto de couro, botas, luvas, uma camisa cinza e um longo sobretudo com capuz, de um tom escuro de púrpura, fechado e preso na cintura por um cinto, com uma fivela prateada. Seu capuz estava abaixado, sua expressão impassível. Seu olho direito, negro como ônix, encarava seu oponente, calmo, compenetrado. Não era possível saber se o outro fora igual um dia, pois havia um tapa-olho ocultando o local da face onde ele deveria estar. Seus cabelos, escuros como o olho, voejavam com a ventania. Em suas mãos segurava um cajado, forjado do mais fino dos metais, com toda a sua extensão coberta de runas e arabescos. A ponta inferior era pontiaguda, e em sua extremidade superior havia um suporte, trabalhado no mesmo metal, sustentando uma grande ametista lapidada, que emitia um brilho místico arroxeado.
O homem que o enfrentava vestia-se da mesma forma, porém, com algumas diferenças. A cor de seu sobretudo era de um vermelho-sangue. Seu rosto estava encoberto pelo capuz, mas podia-se sentir a fúria de seus olhos verdes, que pareciam reluzir sob sua face oculta. Seu cajado também era feito de metal, entretanto suas inscrições e trabalhos eram diferentes e em sua ponta, ao invés de uma ametista incrustrada, havia um rubi, o qual emitia um brilho vermelho intenso, como se emanasse fogo da pedra.
O relâmpago brilhou. O trovão rugiu.
O embate recomeçou.
O combatente vermelho partiu para cima de seu oponente. Sua fúria era como a de um incêndio consumindo uma floresta, selvagem, indomável. Seu adversário continuou aguardando pacientemente, observando a investida impetuosa de seu contendedor.
O relâmpago brilhou. O trovão rugiu.
Enquanto avançava, o rubí de seu cajado brilhava ainda mais intensamente. Não somente o rubí, mas podia-se ver naquele momento por toda a extensão da arma o mesmo brilho. Suas runas se iluminaram e ele ardeu em chamas no momento em que desceu sobre a cabeça do homem de púrpura, que ainda o observava sem reação.
O relâmpago brilhou. O trovão rugiu.
O cajado acertou. Mas não como esperado. Seu ataque colidiu com um duro escudo de ametista, que vinha desde o chão até acima de sua cabeça, conjurado por seu oponente num piscar de olhos. Mal teve tempo de se surpreender com a velocidade de defesa do guerreiro que enfrentava, a pedra explodiu, arremessando-o para trás. O mago vermelho levantou-se a tempo de ver o cajado de seu adversário também encoberto por uma grossa camada de ametista, deixando-o como um grande martelo de guerra. Desta vez, foi ele quem avançou.
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Mostra Ecos 6ª edição
Short StoryA Ecos 6 é uma nova Ecos. Mudar, tentar ir além, buscar o diferente, esta é a única rotina a ser seguida pelo escritor. Mesmo que estas mudanças pareçam simples na primeira leitura, elas partem de tudo aquilo que percebemos que mudou em cada um...