IV. Sangue E Vinho

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    O sinal toca, os alunos se levantam de suas carteiras e faço o mesmo. Guardo meu material dentro da mochila e coloco a mesma nas costas, olho esperando por Tatia e saímos juntas da sala. A manhã foi boa, ter contato humano sem ser minha mãe, depois da minha experiência sobrenatural de ontem. Encontramos Penelope no corredor dos armários.

— Acho que o Johnny Bolton tá afim de mim — disse ela, baixinho mas com um grande entusiasmo.

— Nossa — admiro-a — ele é um gatinho mesmo. Soube que ele vai ser o capitão do time de futebol esse semestre.

— Claro, ele é bom, muito bom — ela me olha como se estivesse querendo fazer eu ter inveja daquilo.

— Tudo bem, eu já vou indo. Minha mãe deve estar me esperando — digo arrumando minhas coisas no armário e depois fechando.

Olho para as duas e me despeço. Saio andando pelo corredor e saio do colégio. Estranho, minha mãe não estava lá. Ela sempre atrasava na hora de me trazer pra escola, mas nunca na hora de me buscar. Bufo indignada, eu queria chegar logo em casa e tentar um contato com Sebastian. Meu Deus, eu estava caidinha por ele. Mas ele era um fantasma. Não daria nem para eu beijar ele direito. Eu acho. Sorrio bobo e me sento no banco olhando o horário no celular.

Já se passavam 15 minutos, e nada da minha mãe. Decido ligar para ela, fica chamando. Respiro fundo impaciente. De repente alguém atende, mas a voz não era dela.

— "Nora Vincent".

A voz era arrepiante e eu podia sentir algo de sombrio nela. Engulo a saliva e resolvo responder.

— Ah... Não, eu sou Nora Gard.

— "Não se faça de tola" — o tom da voz aumenta por um instante. Me assusto.

— Cadê a minha mãe?

— "Venha para casa e você saberá. Nem pense em chamar alguém ou a polícia. Antes que faça isso a garganta da sua mamãezinha vai estar cortada e derramando sangue suficiente para transbordar a minha taça".

Ouço uma risada baixa e diabólica do outro lado da linha. Meu coração acelera e fico pasma. Começo a suar e tremer.

— Não... — digo com a voz trêmula — N-não faz nada, p-por favor.

— "Então venha para casa, Nora Vincent".

Ele desliga e fico em silêncio. Desligo o celular e as lágrimas começam a cair. O que aquele maluco queria? Ele me chamou de Nora Vincent, então ele sabe sobre aquilo tudo que o Sebastian falou. Talvez ele fosse um fantasma, assim como Sebastian. Só tinha um jeito de descobrir. Respiro fundo e me levanto. Saio andando tentando passar despercebida entre as pessoas que saíam da escola.

Chego em casa após andar vários quarteirões a pé. Meu desespero ao pensar que minha mãe corria perigo não cessou nem um segundo se quer. Estava com muito medo, minha boca tinha um gosto amargo. Levo minha mão a maçaneta da porta e abro a mesma. Entro olhando em volta.

— Mãe? — chamo desesperada, com a voz ainda trêmula.

— Aqui, criança.

A voz era a mesma do celular, e vinha da cozinha. Vou a passos calmos e trêmulos. Chego na porta da cozinha e sou tomada por um desespero intenso ao ver minha mãe ali. Ela estava sentada em uma cadeira e amarrada com cordas.

Chorando, vou até ela e tento desamarrar as cordas.

— Hã-hã. Nada disso, belezinha.

Olho para trás e vejo o dono daquela voz sinistra. Era um homem alto e magro, quase esquelético. Sua pele era pálida como de um morto em um caixão, seus olhos eram negros como a escuridão. Seus lábios eram curiosamente saltados para fora, e seu sorriso mostrava os dentes amarelos, onde os caninos se destacavam.

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