VIII. Balada Dos Mortos

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O vento frio batia contra meu rosto quente, que já estava ficando gelado. Eu abraçava meu corpo na tentativa falha de me aquecer. Sentia cada pelo em meus braços arrepiados e eu tremia feito vara verde.

Deixamos o vilarejo a uma hora atrás. Despistamos o Comedor e viemos para esse tal Vale Finado. Meio estranho esse nome, como se nada nessa história de seres sobrenaturais não fosse estranho. Yuri era um bom guia, sabia para onde nos levava. Eu acho.

O vento estava forte, me perguntava como eu era a única ali tremendo de frio, mas me dou conta de uma coisa: eles estão mortos.

O silêncio era inquietante. Eu nunca passei tanto tempo num silêncio assim, me sentia em um cemitério. Literalmente.

— Devíamos ter pego casacos pra Nora. — Sebastian quebra o silêncio.

— Como se fôssemos adivinhar que sairíamos as pressas do vilarejo. — resmunga Lily.

O silêncio retorna. Mortal e entediante. Mas logo ele é quebrado de novo com o som dos meus dentes batendo. Eu estava começando a andar mais de vagar, minhas pernas tremiam muito e eu paro de andar.

— Meu Deus, a viva está morrendo de frio. Temos que parar em um lugar para esquentar ela. — diz Lily, a voz da razão, ao meu ver.

— Espera — Yuri exalta a voz olhando para o horizonte sombrio do Vale. — Tem uma cabana lá. Vamos. Podemos acender fogo para aquecê-la.

Solto um suspiro de alívio. Olho para onde ele apontou e Sebastian coloca suas mãos em meus braços, me empurrando. Era como ser empurrada pelo vento. Um vento bem bonito, aliás.

Chegamos em frente à cabana. Era pequena, talvez uns dois ou três cômodos. Não havia nenhum sinal de vida ou de fantasma por ali. Entramos sorrateiramente, Lily e Yuri vão na frente enquanto Sebastian ficava comigo. Eu já não aguentava mais tremer de tanto frio.

Após uma breve varredura na cabana, não havia mesmo ninguém. Acenderam a lareira que ali tinha. Como eu imaginei, eram três cômodos: onde estávamos eu podia chamar de sala, havia um sofá, lareira e uma pia; o outro era um quarto com somente uma cama; o último era um banheiro pequeno.

Eu estava em frente à lareira me aquecendo. Ainda sentia frio, mas não tanto quanto sentia lá fora. Sebastian se pôs ao meu lado e sorria como quem vai pedir desculpas.

— Me desculpa — ele disse —, se não fosse por mim você não estaria aqui. Acho que sua vida seria bem mais fácil se eu não houvesse aparecido no seu quarto e te contado tudo.

— Não, tudo bem. Vocês precisavam de mim. Não sei como ajudarei, mas... — o olho e sorrio fraco. — E também uma hora ou outra eu iria acabar descobrindo. Tipo, se eu sou um tipo de humana que pode ver esses mundos, eu iria acabar vendo a qualquer momento, sendo você ou não.

Ele sorri e olha para as chamas da lareira, mas logo ele volta seu olhar para mim e diz:

— Mais cedo você falou sobre os vampiros. Então você já os conheceu?

— Pode se dizer que sim. Bem, um vampiro entrou na minha casa e sequestrou a mim e minha mãe, eu te falei. Depois fomos até uma boate de vampiros atrás de sangue de fada pro Lorde Marcel, ou ele mataria minha mãe. Mas no fim, descobri que eles não são tão maus quanto aparentam, só metem uma de vampiros malvados pra levarem eles a sério.

— Uau, aventura e tanto pra uma iniciante nesse novo universo místico. — Sebastian sorri e cruza suas pernas.

Lily estava atenta na janela, ela era do tipo guardiã. Uma garota muito bonita, deve ter morrido jovem, pensei. Seus cabelos loiros combinavam com seus olhos azuis claros. Ao contrário de Sebastian, as roupas dela eram do século XXI. E Yuri, apesar de ter a aparência mais jovem deles três, parecia vestir roupas de uma época bem distante.

Isso faz surgir uma dúvida na minha cabeça, talvez seria rude perguntar. Mas não me contenho. Olho para Sebastian e pergunto.

— Como você morreu? — falo sem perceber o tom que fui direta, vejo ele me olhar arqueando uma sobrancelha. — Ah, desculpa. Sou muito curiosa.

— Tudo bem — ele sorri. — Achei que perguntaria antes. — mais uma vez ele olha para as chamas enquanto começa a falar — Foi quando eu tinha 17 anos. Eu estava com minha família em Veneza, meu pai tinha problemas com agiotas ou coisa do tipo. Eles vieram cobrar, e quando iriam atirar na minha mãe, eu me pus na frente. Levei o tiro por ela.

— Nossa, sinto muito. — o olho com solidariedade.

— Não sinta, já faz um bom tempo. E você não teve culpa.

Sorrio e olho para o chão, mais precisamente para o nada. Fico imaginando se eu teria coragem de levar um tiro por minha mãe. Mas com certeza numa hora dessas não se daria para pensar, apenas agir. Para mudar o assunto, começo outro que eu tive falta de conversar com ele.

— Sobre o Espelho e tudo isso, essa bruxa, se ela foi a criadora de tudo... De onde ela veio?

— Eu não sei. Do infinito? Talvez ela sempre existiu. É mais velha que o tempo. Nunca saberemos. Alguém a criou bem antes disso eu acho.

— Você disse que Deus não existia.

— Eu não disse isso, eu disse que foi Karin que criou o Espelho. Você não acredita Nele?

— Sinceramente, eu não sei. Nunca parei para pensar na existência Dele, nunca fui uma garota de fé.

— A fé é o que nos move. — Sebastian diz aquilo olhando em meus olhos, o que me fez ter uma sensação estranha.

— Você nunca os encontrou aqui? Digo, sua família? — mudo de assunto outra vez, desviando nossos olhares.

— Claro que sim. Eles estão na Capital, eu vim para o vilarejo ajudar Robert em uma pesquisa sobre o Submundo. Porque lá tem um portal para o Submundo.

— Nossa... Então, quantos lugares há aqui? Tipo cidades e tals.

— Há várias, mas há mais vales assim como este. Não construímos muito, porque exige muito perispirito que é nossa força vital. É como construímos as coisas, como "vivemos" — ele faz aspas com as mãos. — Não comemos nem dormimos, na verdade não precisamos de nada que fazíamos no Mundo Natural, mas criamos coisas com perispirito para não ficarmos atoa, por assim dizer.

Sorrio e encosto a cabeça nos braços que cruzo sobre os joelhos. Eu sim sentia sono, ainda estava viva. Em um mundo de mortos.

O Diário Sombrio - Outro Mundo (Em Revisão)Onde histórias criam vida. Descubra agora