Prólogo

59.6K 3.5K 510
                                    

O aniversário de seis anos de uma criança não deveria ser um evento traumático. Momento algum da vida de uma criança deveria ser traumático.

Infelizmente, algumas pessoas tomam péssimas decisões, afetando a todos que os rodeiam e não apenas a si mesmos; interferindo não apenas no presente — no momento em que o corte é feito — mas em todo o curso de uma vida; causando feridas profundas e tardias em cicatrizar.

Isso foi o que ocorreu comigo.

Estava completando seis anos, era um dia lindo e mamãe e papai conseguiram comprar aqueles chapeuzinhos de aniversário. Nossa vida não era ruim, tínhamos o básico para sobreviver e tínhamos amor.

Meus pais eram meus melhores amigos, junto de Jesus e de Lucy. Eu enxergava — ainda enxergo, na verdade — minha mãe como uma rainha. Porém, o meu pai era o meu herói; o melhor colo e o melhor abraço. Sentia o quanto ele amava a sua doce e adorável KitKat. Papai me deu esse apelido devido ao chocolate. Era tradição ele me dar um em meu aniversário.

Até os meus seis anos. Foi a primeira vez que me lembro de não ter ganhado um KitKat no dia 04 de junho.

Nossos amigos mais próximos estavam na nossa casa. Era no bairro mais simples de Boston, mas eu amava aquele lugar. Nós cortamos o bolo e cantamos "parabéns". Após isso, papai se ajoelhou em minha frente, olhou em meus olhos e sorriu. Só fui entender o significado daquele olhar anos mais tarde.

— Seu pai foi comprar o seu KitKat.

Foi o que mamãe disse nas primeiras horas, mas à medida que os dias passaram e papai não retornou, a desculpa de mamãe não me confortava mais. Colocamos a polícia atrás dele, alguns cartazes de desaparecido na cidade, no entanto, não havia sinal algum.

Até que recebemos um telefonema em uma manhã de segunda-feira, duas semanas após o desaparecimento do meu pai. Eu deveria estar na escola — acho que foi por isso que o telefone tocou naquele horário — mas passei mal e mamãe foi me buscar. Ela estava no banho quando eu atendi ao telefone.

— Angelina, eu sinto muito. Não podia mais ficar preso a vocês duas, a esse lugar. Eu quero ser alguém e não vou conseguir se não mudar de vida. Eu sinto muito. Parem de me procurar. Espero que você e a KitKat entendam um dia e que superem tudo isso.

Não houve muitas vírgulas no que ele disse tão pouco a chance de uma resposta. Ele desligou o telefone tão rápido quanto deu a desculpa para ter nos deixado.

E eu fiquei com o telefone na orelha, os olhos cheios de lágrimas e um aperto no coração que eu nunca deveria sentir. Eu só tinha seis anos.

Coloquei o telefone no lugar quando ouvi o barulho na porta do banheiro. Engoli o choro e voltei a me sentar na frente da televisão. Nunca mais consegui olhar o desenho do Papa-Léguas depois daquele dia.

— Quem era no telefone, filha?

Quando mamãe perguntou, achei que fosse partir ao meio.

— Ligaram errado. — Dei de ombros.

Decidi, ainda criança, que mamãe não precisava carregar o fardo das palavras ruins que ouvi de meu pai. Os anos passaram e eu nunca disse quem era no telefone. Mamãe, com o tempo, aprendeu a lidar com a ausência de meu pai e de respostas.

Para ser sincera, eu nunca superei. É só eu assistir ao desenho do Papa-Léguas ou ver um KitKat que eu lembro dele. Lembro-me de como ele me deixou em pedaços, tornando cada memória do meu aniversário de seis anos — e quase todos os outros — traumática.

Porque eu me lembro das suas costas sumindo no portão e eu lembro que, antes de partir, a última coisa que ele me disse foi "eu te amo, KitKat".

O eu te amo mais doloroso que eu já ouvi saiu da boca do meu pai, no meu aniversário de seis anos.

Primeiro Amor • Livro 1 | Série Por AmorOnde histórias criam vida. Descubra agora