Vencedor do Watty 2018 na Categoria Contador de Histórias.
Romance ambientado na Córdoba do século X, durante a dinastia Omíada. Entre personagens históricos como Al-Mansur, e a Sultuna Subh ou Aurora no seu nome latino, se misturam personagens fict...
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Cinco estudantes se reuniam sob os jardins nos arredores de Córdoba durante o intervalo de seus estudos para almoçar, quando um deles, alto, bem-apessoado, com uma fisionomia que revelava certa nobreza, orgulho ou talvez arrogância e com aspecto de um homem destinado a comandar, elevando subitamente a voz, exclamou:
- Guardem minhas palavras; um dia eu serei o líder deste país.
Seus companheiros irromperam em gargalhadas em função de sua exclamação, mas o falante não se intimidou e continuou:
- Quero que todos vocês me digam agora, que cargos pretendem ocupar quando eu chegar lá?
- Muito bom, exclamou um dos estudantes, essas frituras estão excelentes e quero que permaneçam assim. Faça-me inspetor dos Mercados e vou alimentar meus gostos sem qualquer custo.
- Eu, de minha parte, disse outro de seus amigos, percebi que esses figos são da minha província. Faça-me Juiz de Málaga.[5]
Esses deliciosos jardins constituem-se em enorme deleite para mim; adiantou o terceiro deles. Eu gostaria de ser o Prefeito da cidade.
Por fim, o quarto estudante, entretanto, pareceu incomodado com as manifestações de seus colegas e mais ainda com a insistência do último, que acabou provocando sua perda de controle ao puxá-lo pela barba:
- Quando você governar a Hispânia, desculpe-me considerar isso uma bravata, você poderia ordenar que eu fosse untado com mel para atrair abelhas e vespas e então, colocado montado sobre um jumento, com a face voltada para o rabo e ser conduzido através das ruas de Córdoba!
Seu interlocutor deu-lhe um olhar feroz, mas controlando seu desapontamento com nítido esforço, retrucou:
- Assim seja; cada um de vocês terá seu desejo realizado. O dia virá em que eu vou lembrar-lhes de cada palavra que cada um de vocês proferiu aqui hoje.
O repasto terminou, o grupo se dispersou e o estudante que se tinha permitido tais conceitos fantasiosos e grandiosos se dirigiu para a casa de parentes maternos onde se alojava. Seu anfitrião o acompanhou até o seu pequeno quarto, no andar superior, e tentou conduzi-lo para uma conversa, mas o jovem, absorvido em seus pensamentos, apenas retrucava de forma monossilábica. Percebendo que não extrairia nada dele, seu albergueiro deu-lhe boa-noite e deixou o quarto.
Na manhã seguinte, quando o estudante não apareceu para o desjejum, o parente subiu ao andar superior para acordá-lo e, com surpresa, percebeu que sua cama não tinha sido desfeita e que o jovem estava sentado sobre um banco com a cabeça inclinada sobre o peito.
- Parece que você passou a noite em claro, exclamou!
- É verdade, retrucou o estudante; eu permaneci acordado, obcecado com meus pensamentos.
- E quais são essas preocupações?
- Estive pensando comigo mesmo quem vou nomear como Juiz quando governar a Hispânia e o atual juiz tiver morrido. Passei mentalmente todo o califado sob escrutínio e só encontrei um único homem digno do cargo.
- E por acaso este homem seria Muhammad ibn Salim?
- Maravilha! Exato, esse é o homem! Como é estranho estarmos de acordo!
Estava claro que o estudante estava obcecado por uma ideia fixa - uma ideia que era o seu sonho durante o dia, mas que à noite perturbava o seu sono.
O nome do estudante em questão era Abu Amir Muhammad. Sua família era a de Beni Abi Amir, que pertencia a uma tribo do Iémen, era nobre, mas como já mencionado, não ilustre. Seu ancestral Abd al-Malik foi um dos poucos árabes encontrados no exército berbere com o qual Tarik invadiu a Hispânia e se distinguiu no comando de uma divisão que capturou Carteya, a primeira cidade da península ibérica que caiu nas mãos dos muçulmanos. Como recompensa por seus serviços, recebeu o Castelo de Torrox, bem como o terreno em que estava construído, situado às margens do rio Guadiero, na província de Algeciras. Abd Al-Malik e seus descendentes, entretanto, só residiam no castelo em temporadas, fazendo suas vidas em Córdoba como uma maneira de obter um pé na corte ou uma posição no magistério. Este foi exatamente o caminho percorrido tanto por Abu Amir Muhammad ibn Al-Walid (bisavô de Abd Al-Malik) e seu filho Amir. Este último ocupou muitos postos e foi o favorito do Sultão Muhammad que chegou ao ponto de colocar seu nome em moedas e flâmulas. Muhammad, o avô de nosso jovem estudante, foi por oito anos o Juiz de Sevilha e Abdala, seu pai, foi um teólogo e jurisconsulto bastante piedoso e distinguido, que fez peregrinações a Meca.
A família de Beni Abi Amir, embora antiga e respeitável, não estava classificada dentro da alta aristocracia; pertenciam ao que se convencionava denominar de nobreza das vestimentas e não das armas, os descendentes de Abd al-Malik não tinham seguido a carreira das armas, aquela que conferia as maiores honrarias e dignidade, todos tinham sido magistrados ou oficiais da corte.
Essa tinha sido a trajetória de nosso estudante Amir Muhammad, que chegou à capital e logo galgou os degraus da Universidade. Um jovem impetuoso com uma inteligência afiada, dotado de um entusiasmo natural, revestido por uma imaginação crescente e um temperamento explosivo; além disso, escravo de uma única paixão movida por força irresistível; um dia chegar ao poder.
Alimentava esses ideais com livros de crônicas antigas da nação e de suas páginas mofadas era principalmente fascinado pelas aventuras de homens que, partindo de posições até inferiores às dele, alcançaram passo-a-passo as maiores honrarias do Estado. Esses homens eram assumidos como modelos e como não era de seu estilo manter suas ambições apenas para si, seus companheiros costumavam encará-lo como amalucado, o que, com toda a certeza, ele não era. Suas obsessões o absorviam, é verdade, mas isso não era devido a problemas mentais, mas à presciência de um gênio.
Como adolescente, Ibn Abi Amir, como o chamaremos a partir de agora, durante boa parte desse relato, se mudou para Córdoba para estudar Letras e Direito. Sua formação - com a intenção de atuar como juiz - incluía interpretação do Alcorão, tradição profética e aplicação da lei islâmica. No entanto, a má situação de sua família com a morte de seu pai, ocorrida logo depois de regressar de uma peregrinação à Meca, o levou a abandonar os estudos e assumir a profissão de escrivão. Nesse cargo, sua ambição e talento não tardaram a chamar a atenção de outra figura emergente em Córdoba, o magistrado Muhammad Ibn Al-Salim, que apresentou o jovem à corte. Logo se transformou em intendente do filho herdeiro do Califa Al-Hakam II e da favorita Subh, com a qual estabeleceu uma relação de amizade bem próxima.
***
Notas:
5. O termo Juiz, aqui seria um Qadi ou Cádi. Um cádi ou qadí (em árabe: قاضي qāḍī) é um juíz muçulmano que julga segundo a charia o direito religioso islâmico. Os cádis julgam temas religiosos, tais como heranças, matrimônios, divórcios, ainda que teoricamente detenham jurisdição sobre todas as questões legais que envolvam muçulmanos, tanto em questões civis quanto penais. A sentença de um cádi deve basear-se na ijma, o consenso predominante dos ulemás, acadêmicos islâmicos.
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