A morte da Esperança

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"Meu irmão já está morto". Repito esse mantra em minha mente durante toda viagem. Quando apareço dentro da escola continuo repetindo. As pessoas ficam atônitas quando me viram, porque o jeito que apareci do nada quebrou parte da manipulação de memória. É o que falei de Deus não ser onipotente. Algumas colegas de classe tentam falar comigo, assustadas, mas não tenho tempo para lidar com isso. Agora não quero saber e pouco me importo com qualquer outra coisa que não seja Haroldo. Tirar a vida de meu avô é algo que nunca digeri, mesmo naquela situação, mas matar meu irmão é algo que ainda não sei como fazer. Tem que ser feito, eu sei, mas entre uma repetição e outra do mantra a ideia não se torna mais aceitável. Quero me matar só para cuspir na face de Deus quando o ver pessoalmente. Acho que Deus não tem face, mas gostaria que tivesse, para poder cuspir nela.

Sei exatamente onde ele está. Luz explicou que uma menina poderia morrer se eu não chegasse a tempo, então subo correndo as escadas, pulando de quatro em quatro degraus. Chego a tempo.

Ouço vozes dentro do depósito, que está com a porta aberta. Reconheço a voz de meu irmão. Sinto O Mal olhando com desprezo para o que resta de minha alma angustiada, dividida entre o amor e o dever. Grandes tentáculos vermelhos, feitos de fogo e sangue, abração todo lugar. É maior do que aquilo que possuiu meu avô. Isso não é uma possessão, é O Mal vivo. Meu irmão é O Mal.

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