Revelações de um disparo

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Quando acordei me sentia bem, nem mesmo cansado mas novamente estava com a garganta extremamente seca. Deitado sobre um fino colchão, fiquei sem a menor vontade de levantar Já que desta vez os lençóis eram limpos, aumentando ainda mais minha intenção de permanecer deitado.

Senti o cheiro abafado de papelão velho e barata e aos poucos percorri com os olhos todo o lugar, logo percebi que estava de volta ao galpão.

Passei a noite com sonhos estranhos, de perseguição e morte, foi assustador. Então achei que tudo não passava do stress causado pelo abalo da morte de Ema.

Willian dormia em uma cadeira, debruçado sobre uma escrivaninha; roncando e babando. Novamente a sede me fez levantar, meus lábios já apresentavam rachaduras de tão secos que estavam.

Andei em meio aos automóveis e caixas amontoadas a procura de água e após passar pelas estantes de ferro, encontrei uma cozinha improvisada aos fundos do galpão, onde pude me hidratar. Procurei nos armários algo para comer; sentia muita fome mas encontrei apenas biscoitos velhos, o que não me agradou.

Decidi então sair e comprar algo para comer, só aí me dei conta que estava sem camisa e nem lembrava que a havia tirado. Então voltei para o local onde estava o colchão para procurá-la. Puxe os lençóis e ergui o colchão mas não encontrei, então fui perguntar para Willian.

― Willian, ei velho! Acorde. Tirou minha camisa daqui? ― Willian acordou e virou-se para mim.

Eu quero dar uma saída e comprar qualquer coisa para comer, estou morrendo de fome e nessa espelunca eu não encontrei nada .― minha fome me deixou impaciente.

Willian estava paralisado, me olhando com espanto. Continuei falando da minha fome e ele permanecia estático, não tirava os olhos de mim o que acabou me incomodando.

― Diga logo, velho, o que deu em você? ― Parei na sua frente esperando resposta.

― Que diabos é você? ― Willian se afastava meio desequilibrado, quase caía no chão.

― Do que está falando, velho? ― Falei meio que rindo com a reação exagerada dele.

― Como assim, do que? Não faz quatro horas que te deixei quase morto neste colchão! Me explique o por que você já está de pé. ― colocou as mão na cabeça, ― Meu Deus, não ficou nem mesmo uma cicatriz.

Eu não conseguia digerir o que Willian falava. Era muito surreal.

Apesar de me lembrar de tudo que acontecera na noite anterior, cremar Ema, brigar com Dom, até mesmo do meu ferimento e a dor insuportável que sentia, eu insistia em me iludir que tudo aquilo não passava de um sonho, de delírios ou mera imaginação.

Enquanto eu procurava em meu abdome respostas para aquela insanidade, Willian ainda me encarava com espanto e eu não tinha resposta para dar à ele.

― Não! Isso é loucura, deve ter sido algum tipo de alucinação compartilhada ou... ou entramos em contato com alguma droga alucinógena! ― Eu não me conformava com a hipótese de uma recuperação absurda, de um ferimento tão grave em um curto espaço de tempo.

― Eu não estou louco, você deveria estar agonizando ou até mesmo morto em cima deste colchão, isso não faz sentido. ― Willian estava histérico, gritando e gesticulando como um louco, no entanto não era para menos.

Me sentei na cadeira em que outrora Willian dormia; ainda pasmo com os acontecimentos. Ele foi mancando até uma grande lixeira e pegou uma caixa de dentro e jogando-a na minha frente disse:

Inimigos Em Primeiro GrauOnde histórias criam vida. Descubra agora