Bruna - Pelo menos, as férias escolares chegaram

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Pelo menos, as férias escolares chegaram. Ainda bem. Já não estava aguentando mais acordar cedo. Não acredito que depois do próximo semestre este tormento acaba e eu posso me dedicar à carreira de forma integral.

Comecei o dia visitando vovó. Ela está na mesma, cada vez mais dependente das enfermeiras. Tenho que me conformar que em breve vou perdê-la. Só de pensar nisso me dá um aperto no coração. Nesse dia estarei completamente sozinha.

Não posso reclamar, nós duas fomos guerreiras. Enfrentamos os tribunais sem medo. Ela me ajudou de todas as formas possíveis, ficando inclusive contra a própria filha por mim. Está chegando a hora de lutar minhas batalhas sem mais ninguém.

Tento me conformar, mas por enquanto a abraço com todas as minhas forças. E conto para ela as novidades. Ela faz esforço para acompanhar e retribui com um sorriso. Acho que nunca mais encontrarei um sentimento verdadeiro assim.

Depois do encontro com vovó, fui passear na praia. Usei a peruca loira e os óculos escuros. Não quero fãs me fazendo perguntas. Preciso desse tempo para mim e caminhar desanuvia as minhas ideias.

Também sabia que iria encontrar André jogando futebol. Não me incomodava nem um pouco vê-lo sem camisa na areia. Ele faz parte das maravilhas naturais daquele cenário.

Ele não parecia estar muito disposto para jogar. Não fazia questão de correr, perdeu os passes e quando deixou uma oportunidade de gol passar, seus próprios companheiros de time o mandaram para o chuveiro mais cedo. André deu um mergulho no mar e veio se sentar na areia. Eu não podia perder esta oportunidade.

─ Bruna? – Ele me encarou sem ter certeza. Eu me aproximei devagar, com a peruca loira e os óculos de sol, estava mesmo bem difícil qualquer reconhecimento.

─ Oi, professor. – Resolvi investir na Lolita. Pisquei os olhinhos e molhei os lábios. Lamentei a ausência de um pirulito. Bobeira minha não ter comprado.

André sorriu para mim como se estivesse vendo algo muito engraçado. Foi um sorriso sincero.

─ Senta aí. – Apontou um lugar ao lado do seu.

Tratei logo de agarrar um dos braços dele. Meu professor, diferentemente do que acontecia na escola, pareceu nem ligar para a minha tirada de casquinha. Ficou olhando para o mar. Encostei minha cabeça no ombro dele.

Se um paparazzi nos pega naquele momento, seríamos a novidade da semana: "Bruna Drummond e o gatinho mais descolado da sociedade curtindo na praia. Será que é namoro?". Naquele momento, me arrependi amargamente de ter escolhido minha peruca mais realística.

─ Você fica melhor morena. – Ele deveria estar lendo meus pensamentos. Tirei a peruca na hora. Joguei dentro da bolsa. Sacudi o cabelão. André ainda olhava para o mar.

─ Melhor agora?

─ Muito. – Ficamos em silêncio. Na minha cabeça, eu imaginava um universo paralelo em que meu professor gato me olhava nos olhos e me pedia em namoro. Daí ele me levava no colo até o seu apartamento e nós fazíamos amor entre pétalas de rosas. De volta à realidade, André me encarava. – Você já se apaixonou de verdade por alguém, Bruna? Tipo assim: amor de verdade?

Amor? Perguntas filosóficas e existenciais? Sofrimento e perda? Qual é? Ninguém hoje em dia quer um pouco de sexo e um compromisso que faça bem aos dois? Que saco! Será que não dá para trocar uns beijinhos, uns telefonemas e ficar por aí mesmo?

─ Deus me livre! – Falei e o soltei como se ele fosse contagioso.

─ Entendo o seu ponto de vista. – Voltou a perder o seu olhar na imensidão do mar a nossa frente. – Também acho que é a coisa mais assustadora que já enfrentei na vida.

***

Por Onde AndeiOnde histórias criam vida. Descubra agora