Lego é divertido e estimula a criatividade e o raciocínio.
Era manhã de domingo, e a gente tinha planos de dar uma volta e sair para almoçar. Enquanto ajeitávamos as coisas, porque sair com filhos é como se preparar para uma expedição de 97 dias no deserto, meu Rui se sentiu mal e foi ao banheiro vomitar. O Sérgio, com aquele sarcasmo infantil, começou a rir, e logo mandamos ele brincar na sala.
Em menos de um minuto, enquanto eu ainda cuidava do pequeno enjoado, o Sérgio grita desesperado que engoliu um Lego. Pálido, tremendo da cabeça aos pés, começou a dizer que ia morrer. Eu e o Simão no meio de tanta confusão, não sabíamos o que fazer, quem acudir.
Deixei o Rui aos cuidados do Simão e fui acalmar o Sérgio. Peguei-o no colo, abracei, pedi para respirar. Com 8 anos, ele já sabia me dizer que sentia um incômodo na região do peito, mas não soube dizer como engoliu a peça. Acredito que, com o susto, a memória tenha falhado. Ele relatava que tentava tirar uma peça da outra, com a boca. O tipo de coisa que a gente chama a atenção o tempo todo, mas que a gente mesmo faz quando brinca com eles. Ele tossia seco e suas mãos estavam húmidas.
Quando percebi que o Rui tinha se recuperado, e estava deitado no sofá, decidi levar o Sérgio ao hospital, por desencargo de consciência. Pedi que ele separasse uma peça igual a que ele tinha ingerido, que prontamente chegou às minhas mãos.
Uma peça redonda, vermelha, que não passa de pouco mais meio centímetro de diâmetro.
Tentando acalmá-lo, disse que a peça era menor que um chiclete que ele já havia engolido, que tudo ficaria bem. Ele não ia morrer. Mas ele esfregava o peito e dizia que ela estava ali. Tentei entender se ele a havia aspirado, e ele não soube explicar. Ali, minha boca secou, e dali por diante tudo o que eu dizia para ele era na tentativa de acalmá-lo e me acalmar também.
Domingo de manhã, e o hospital estava tranquilo. Na sala de espera, senti a tosse aumentar, sempre seca, e ele começou a achar engraçado o chiado no peito. Eu, não. Mas esboçava um sorriso. Logo o pediatra disse:
-Vamos fazer um raio-x, mas acho pouco provável que uma peça plástica seja detectada num exame desses.
De fato, o raio-x foi em vão. Já com o doutor, ele perguntou:
-Há quantas horas seu filho fez a última refeição?
Eu nem conseguia me lembrar depois de tanto susto.
- Acho que eram dez e meia, onze horas.
Com uma cara de pesar, o jovem médico disse que era o caso de uma broncoscopia, um procedimento parecido com a endoscopia, mas para a área do pulmão. Apesar de ele não ter desconforto para respirar, o melhor era averiguar se a peça não estava alojada no pulmão, visto que ele não estava com aquela tosse, nem com aquele chiado antes do ocorrido.
Passamos mais de 4 horas jogando, conversando, passeando pelo hospital, aguardando pela liberação de um quarto. Fiz a besteira de pesquisar no Google uma hora em que ele estava distraído no tablet.
Tive vontade de chorar. Mas estava sozinho, enquanto o Simão ficou em casa com o Rui. Tive medo. Mas pai não pode demonstrar medo.
Apesar de parecer estar traindo a confiança dele, procurei o tempo todo, lhe dizer que estava tudo sob controle, que eram procedimentos comuns. Embora a anestesia tivesse que ser um pouco mais forte que a da endoscopia, pois as vias aéreas são mais sensíveis que o esôfago. A gente imagina um monte de catástrofes, mas estampa um sorriso no rosto, e diz que tudo vai ficar bem.
Já estávamos no centro cirúrgico, quando acariciei seu rosto, comparei-o ao Homem de Ferro com tantos eletrónicos. Rimos com a equipe falando de Lego.
Aí a especialista disse:
- Acredito que a peça tenha ido para o estômago, pois a tosse dele não está forte, e ele está respirando bem, mas vamos ter certeza, vamos observar este pulmão e ver que está tudo bem com o ele.
Tive que sair da sala para o procedimento começar. Ele ficou tranquilo, como quem fica na cadeira de um dentista. Eu sai segurando as lágrimas e agarrei a esperança em meus braços.
Um enfermeiro me serviu café e disse que em 30 minutos o procedimento terminaria. Mal conseguia me concentrar. Não queria estar sozinho ali. Estava me sentindo num precipício, sem ninguém ao meu redor. Liguei para o Simão, para o deixar a par da situação e dos procedimentos.
Em pouco mais de 15 minutos, a doutora me chamou.
- Encontramos uma pecinha bem parecida com aquela que você me mostrou, alojada na parte inferior do pulmão direito. Seu filho está bem, mas se a peça tivesse ficado numa outra posição, seu filho poderia ter morrido. Gelei. Chorei. Fui acalmado por uma profissional muito humana.
- Lego é muito bom, mas extremamente perigoso. Foi um acidente, eu sei.
A gente nunca acha que vai acontecer com a gente, que a gente está sempre de olho, que está tomando cuidado. E, num piscar de olhos, as coisas acontecem, te deixando sem chão, com um sentimento de fracasso.
Pensava: tudo o que eu tenho que fazer é zelar pela segurança dos meus filhos, e eu falhei .
Já de volta à sala de recuperação, encontrei meu menino anestesiado, num sono gostoso, que invejei. Ali eu consegui pedir perdão, rezar, prometer, agradecer. Ali mesmo, esperei mais de uma hora até que meu filho despertasse. Ali, o anestesista me explicou que existe uma peça especial chamada extrator de Lego e que é vendida separadamente. Por um momento, fiquei incrédulo: por que a empresa Lego não distribui o tal extrator em cada caixa?
Em tantas caixas que temos em casa, temos apenas 1 extrator, que se parece com um mini pé-de-cabra, e que nem sempre funciona. Diferente desse que ele tinha me mostrado. Eu ainda vou participar numa campanha de: Lego, extrator tem que vir em todas as caixas.
Mas a campanha agora é zelar pela segurança dos meus filhos.
Ele acordou, e mal acreditou no que aconteceu.
Rindo, eu entreguei-lhe o pote:
-Está aí, a pecinha que você tinha perdido.
Passamos a noite no hospital, em observação por conta da anestesia e do desconforto respiratório que ele poderia ter.
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Amor sem limite
SonstigesMinha história podia ser como tantas outras, mas começou de uma forma muito diferente. Me casei com um homem, que já fora mulher, e mudou para me fazer feliz e ser feliz. Com ele tive 2 filhos gémeos, 100% nossos. Mas filhos, não é só coisas boas...