Capítulo 19 - Take Me to Church.

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Minha vida toda eu passei na igreja. Catequese, Crisma, 1ª Comunhão... Sempre considerei minha fé a coisa mais importante da minha vida. Sempre acreditei que Deus estava comigo, me ajudando. Não posso mentir que já tive minha fé testada, mas quem nunca passou por situações ruins? Bem, eu vivi um milagre, então não tenho do que reclamar. Mas nunca fui de tentar enfiar as coisas que acredito na garganta das pessoas. Cada um acredita no que acredita, e não tem nada que eu possa fazer.

Ainda me encontrava estática, intercalando olhares entre o paciente e sua recém-aparecida esposa. Engoli em seco e respirei fundo, tentando reagir de uma forma um pouco normal. Arrumei a postura e sorri o menos falso possível, apertando a mão da mulher.

— Dra. Claire Scofield, é um prazer. – apresentei-me, tentando esconder o choque.

— O prazer é todo meu... – afirmou, educadamente – Você pode me atualizar sobre o caso dele? – pediu, parecendo preocupada.

— Claro. Seu marido está com insuficiência renal, causada muito provavelmente por abuso de remédios. De acordo com exames de imagem, os rins dele estão muito deteriorados, e ele terá que ficar na fila de transplante. Amanhã faremos uma cirurgia exploratória, para darmos uma olhada mais de perto no problema. – respondi calmamente, enfatizando a palavra "marido", de forma um pouco irônica.

— Oh meu Deus, eu não sabia que o problema ia além do naufrágio! – exclamou a mulher, cobrindo a boca – Querido, nós vamos passar por isso juntos, você não está sozinho... – virou-se para ele e segurou sua mão, olhando-o com carinho. Pelo pouco que eu conhecera da mulher, ela me parecia uma pessoa maravilhosa, e não via motivo aparente para ele querer flertar com outras mulheres – É você que realizará a cirurgia? – voltou-se para mim novamente, ainda apertando a mão do homem.

— Eu apenas ajudarei, quem realizará serão os cirurgiões especialistas. Eu ainda sou uma residente. – falei, e não pude deixar de encarar as mãos dadas dos dois.

— Entendo... É uma cirurgia arriscada? – franziu o cenho, aparentemente muito preocupada.

— Seu otimismo me surpreende, Katlheen. – ironizou Ronan, que se encontrava quieto e com cara de desconfiado desde a chegada de sua esposa.

— Eu só tenho medo de que alguma coisa aconteça com você, querido. – defendeu-se com uma voz doce, acariciando seu ombro.

— Amanhã os cirurgiões e eu passaremos novamente para esclarecer todas as dúvidas. – afirmei, querendo muito sair dali e me livrar daquela cena melosa – Mas respondendo sua pergunta, não, não é uma cirurgia arriscada. – sorri simpática – Agora, se me dão licença, eu tenho algumas outras coisas para resolver.

— Ah, claro, não queremos tomar seu tempo, eu sei que você deve ser muito ocupada. – disse a mulher, num tom compreensivo. Mal sabia ela, que naquele hospital eu não ficava realmente ocupada com alguma coisa havia meses.

— É, claro. – ri forçado, dando de ombros – Vejo vocês amanhã. – despedi-me e não pude deixar de dar uma boa encarada no paciente, que parecia constrangido e manteve seus olhos em mim o tempo todo.

Deixei o quarto e entreguei o prontuário para uma enfermeira, apressando-me para longe dali o mais rápido possível. Sim, eu me iludira que um clima se formara ali. Sim, eu já tinha feito mil e um planos, porque eu nasci para ser feita de trouxa. E sim, eu estava constrangida e com raiva de nós dois: dele por ter flertado comigo e me iludido mesmo sendo casado, e de mim por me deixar levar tanto por apenas alguns flertes. Talvez fizesse muito tempo que eu não tinha aquela troca de faíscas com algum homem, e estava me atirando facilmente para o primeiro que me apareceu.

Claire's AnatomyOnde histórias criam vida. Descubra agora