Capítulo 58

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Domingo de manhã, vamos nós, Joice e David. No caminho conversamos e brincamos bastante, eu queria distrair Gilmar, sei que minha família não é fácil, costumam fazer brincadeiras grosseiras e de mau gosto. Não tem educação, são exagerados, não sabem falar baixo, é tudo na base do grito. Ele não está acostumado com isso. Ele se surpreende com o lugar.

- Nossa que morão. Fica pertinho do céu mesmo. E realmente era um moro bem alto.

Peço para Gilmar ficar no carro, para que eu primeiro possa conversar com a minha família e ele fica ali enquanto vou. Quero pedir que tenham bons modos com ele.
Ao entrar em casa, meus 4 irmãos estão na mesa e me olham boquiabertos, sem dúvidas estão surpresos.

- Ela só aparece quando precisa de alguma coisa. Eliana despeja seu veneno.

- Ela veio aqui pra mãe sustentar mais um. Ana não perde a oportunidade de me atingir.

- Deve tá passando fome, porque ela não faz nada da vida. Esse me dói, Dan é o irmão por qual eu mais tinha sentimentos.

- Se ela vem buscar comida não deixa ela levar. Luis é um otário, nunca nos demos bem.

- Eu não vou sustentar filho de ninguém, se tivesse vergonha não vinha na minha casa. Fica dependendo do pirão dos outros, na minha casa não tem espaço pra mais ninguém. Me atingiu de um jeito, virei as costas e sai chorando, as crianças no carro não entendiam nada e Gilmar estava preocupado.

As pessoas mais tóxicas são aquelas que estão na família, que nunca te incentivam, te criticam e te julgam, que se acham no direito apontar seus defeitos, esses indivíduos são bem piores que adversários, pelo menos o inimigo as vezes luta por algo que ele também almeja ter, já alguns parentes torcem para que fracasse principalmente quando vêem o seu sucesso, eles se incomodam com simples fato de te ver no topo e sentem inveja por isso. O melhor é manter distância de pessoas assim, elas são falsas, perversas, se acham melhores dos que as outras, são altamente corrosivas, destroem a sua própria vida e a vida daqueles que estão ao seu redor.

- O que aconteceu amor para ficar nesse estado? Eu contei aos prantos o que aconteceu.

- Não aceito que eles falem assim com você, deixa que eu vou resolver isso agora. Eu tento impedir Gilmar, porque sei que minha família é daquelas bem barraqueiras, peço para Joice ir atrás dele.

 Minutos depois Joice aparece arrastando ele, vi que todos eles vem atrás, posso ver como eles ficam chocados ao ver o carro. É, eu entendo eles, não queria ouvir suas desculpas pelo simples interesse de se dar bem com o dinheiro dele. Eu não queria mais confusão e fingi passar mal.

- Ai amor, ta doendo meu peito não consigo respirar, vamos sair daqui preciso ir no médico.

A atenção dele se volta para mim e vem correndo ao meu encontro, ele entra no carro e sai em disparada. Eu nunca vi ele desse jeito quando estamos chegando perto do hospital da cidade conto pra ele que é mentira que fiz aquilo para sair de lá.

  -Porra, tu quer me matar? Nunca mais faça isso. Joice e David não falam nada porque estão com medo e Gilmar que está transtornado, posso ver em sua expressão.

- Você chama aquilo de família? Pelo menos agora eles nunca mais vão te procurar. Sei que a minha não é a melhor, mas isso não deve ser chamado de família. Minha família nunca foi boa mesmo, sempre me rejeitaram. Meu pai que era meu tudo, já não está aqui para me cuidar e me proteger, como fazia quando era menina.

- Aquela sua mãe é uma bruxa, como você suportou ela todo esse tempo? Mas pode ter certeza que vamos formar a nossa e não será nada igual a eles. Seremos uma família de verdade. E amor, tudo que você precisar pode contar comigo sempre, eu nunca vou te abandonar.

Suas palavras me confortam, sempre me senti estranha no meio deles e minha vida com Gilmar está apenas iniciando, não preciso mais saber de quem não gostava de mim. Não vou morrer por esquecer quem nunca foi capaz de me amar.
Voltamos para Florianópolis, vamos direto para casa, estou sem ânimo para qualquer coisa. Joice até tenta me dar uma força.

- Tia não fica assim, você sabe que é o jeito deles. Depois eles vão se arrepender.

Entro no meu quarto e me tranco no banheiro, estava sofrendo muito com essa reação da minha família e o pior de tudo, é que fui convidar eles para o casamento e nem deu tempo para isso. Eles nem vão comparecer, na verdade eu nem quero mais a presença deles.

- Amor sai dai! Vem comer.

Nem tinha me dado conta de quanto tempo fiquei trancada, que nem tinha almoçado mas eu não estou com fome. Estamos em julho e o inverno aqui sempre é frio demais. Minha barriga esta tão grande que não tenho mais roupa que me sirva. Coloco uma calça de pijama que ainda me serve, um sutiã e me enfio debaixo das cobertas. Durmo aos prantos. 

Já é noite e Gilmar me acorda.

- Amor, você dormiu a tarde toda, vamos acordar e comer.

- Gilmar eu estou sem fome, me deixa dormir. Ele se encaixa a mim, fica ali me acariciando, me beijando, me mimando. Ter ele ao meu lado é tudo que eu preciso, seus carinhos me fazem sentir especial. 

- Eu nunca vou te abandonar. Te amo. O que seria de mim sem ele?

*

Passei a semana toda assim, deitada e chorando, só me levantando para ir no banheiro. Comer só quando Gilmar vinha me tratar. Ele me dava a comida na boca, até parecia que eu era uma criança. Hoje é quinta e não vi nenhum deles, nem Joice nem David e muito menos Gilmar. Eu como os outros dias, passei o dia todo na cama.
Amanhã é dia de ir no médico pois ele preferiu acompanhar a gestação de semana em semana. Eu não tenho nem vontade de sair de casa.

- Oi tia? Ainda deitada?

- Joice, to sim. E queria permanecer.

- Tia, não pode ficar assim, pensa no bebê, se você ficar mal ele também vai. Deixa eu te arrumar e vamos jantar. O tio comprou alguns vestidos porque não ta te servindo mais nada, vem. Me olho no espelho e estou com uma cara abatida, olheiras, minha raiz cresceu, precisava de um up.

Joice, fez uma trança embutida, passou uma maquiagem leve para disfarçar as olheiras. Ela me ajudou a por o vestido. Vestido de cor marinho cheio se coração branco que marcava os seios e era todo solto.
Quando abro a porta, a sala esta cheia, a família de Gilmar se faz presente, balões, muitas comidas e um bolo. Estava tão triste pelo que aconteceu que até esqueci do meu aniversário. A família de Gilmar me acolheu tão bem que sentia como se fosse a minha família e de uma certa forma seria. Eu não estava tão animada assim mas essa festinha levantou minha estima. Ele sempre tinha seu jeitinho de arrancar um sorriso de mim. Comi aquele bolo maravilhoso, até repeti, podia ver sua alegria por me fazer sair do quarto. Seus lábios dizem Eu te amo.
Depois que todos foram embora, comecei a arrumar a bagunça que ficou, Joice pediu para mim descansar e deixar que ela arrumaria.

- Amor obrigado por tudo que você faz, não sei o que seria de mim sem você. Quando ele entrou na minha vida algo dentro de mim virou para a direção do sol, cada pedacinho meu se aqueceu e eu nem liguei por não estar conseguindo enxergar um palmo a minha frente. 

- Fazer você feliz não tem preço para mim e eu vou te fazer muito feliz ainda. Esse vestido ficou perfeito em você, fica tão redondinha. Eu acho isso lindo, pra mim é mais uma prova que o amor existe e que ele supera qualquer coisa, até as dificuldades e os obstáculos da vida. 

- Ha é? Obrigado por me chamar de gorda.

- A gordinha que eu mais amo. Mas preferia tirar ele de você, sei que não é um bom momento. Existe algo em nele que me encanta, que me leva a ver o mundo de outra maneira. Como há também um lado que me excita, me faz delirar e o querer.

Digo a ele que amanhã tem consulta mas como ele vai ter quer ir para Balneário, não vai poder me acompanhar nessa consulta. Por mim tudo bem, eu posso ir de táxi, não vejo problema nenhum nisso.



Chama do pecado - Em revisãoOnde histórias criam vida. Descubra agora