Carlos Eduardo - A simples menção de namorar Bruna

82 10 0
                                    

A simples menção de namorar Bruna, de me declarar para Bruna, ainda que de mentira, mexeu demais comigo. Fiquei gelado. Estático. Preso dentro de mim mesmo. No meio daquela confusão toda, eu meio que tinha esquecido como essa garota me tira do eixo, mexe comigo, me enlouquece, me enfeitiça.

Não. Brincar com isso é brincar com fogo. E eu não sou bom em brincar com fogo. Eu provavelmente iria me deixar queimar inteiro. Foi por isso mesmo que decidi que o tango seria nossa última música. E seria. Certamente seria.

Dirigi em silêncio, absorto em todos esses pensamentos.

─ Kadu, você sabe que eu seria incapaz de te usar, não sabe? – Bruna assanhou meu cabelo com intimidade. – Não liga para as loucuras da Daniela, não. Ela só estava tentando resolver as coisas da maneira mais fácil.

─ E você não concorda com ela?

─ Não. – Ela me respondeu séria. – Não vale a pena!

─ Não vale a pena arranhar mais ainda sua imagem comigo? – Ela respirou fundo.

─ Você é o melhor amigo que eu tenho em muito tempo. Não vale a pena nada que me faça correr o risco de te perder. – Mais um sorriso incrível. Desses de derreter todas as barreiras do medo. – Agora será que dá para você agir com mais naturalidade? Esse lance de você estranho comigo é um saco! – Estacionei o carro na garagem, na vaga dela. O meu ficara na empresa. No meio da confusão, não tive como pegá-lo. – Não se preocupe! Não vai ser dessa vez que o senhor vai tirar uma casquinha de Bruna "Delícia" Drummond. – Piscou provocante para mim e saiu do carro.

─ Não vou pegar o sobejo de jogador, ok? – Depois dessa, ela ficou calada. Achei que tinha ido longe demais. Andamos até o elevador. – Desculpa, Bruna. – Pedi.

─ Não. Não foi nada. – Ela apertou o andar dela. Eu não apertei o meu. – Tudo bem. – Sorriu.

Mais silêncio. O elevador chegou. Entramos. Um do lado do outro, encostados no espelho.

─ Você gostava muito dele? Do Altair? Por isso você chorou tanto hoje à tarde? – Ela demorou a responder. Pensou na resposta. Então levantou os ombros, olhou bem no fundo dos meus olhos com aquele caos que ela sempre carregava dentro de si e soltou:

─ Tentei fazer dar certo. – Sorriu. – Mas como você já deve ter percebido nesse curto espaço de tempo que estamos convivendo, fazer dar certo é praticamente impossível para mim.

O elevador chegou ao andar. Ela abriu a porta e eu entrei sem cerimônia. Bruna tirou os sapatos e se jogou no sofá. Sentei do lado dela.

─ Você me dá uma carona para a escola amanhã? – Pedi.

─ Claro, Kadu. – Parecia acordar de um transe. Acho que percebeu que meu carro ficara na empresa. – Mil perdões. Esqueci completamente de você. Do seu carro. Foi mal! Mal mesmo. – Lamentou. – Aliás, você foi um fofo o dia inteiro. Muito obrigada por tudo. – Sem vacilar, puxou meu rosto e tascou um beijo na minha bochecha.

Eu estremeci. Ela percebeu. Por um átimo de segundo, ela não soube ao certo o que fazer. Talvez ela fosse me beijar. Talvez eu quisesse muito que ela fizesse isso mesmo. Mas ela simplesmente pediu licença e saiu da sala. Disse algo sobre pegar uma meia, um chinelo, eu nem entendi. Ainda estremecia com o beijo na bochecha.

Tentei agir com naturalidade. Levantei e abri a geladeira. Coloquei um copo de leite para mim.

─ Posso pegar um litro de leite? – Gritei. – Lá em casa não tem nada.

─ Pode.

Enquanto eu tomava o leite, ouvi o barulho de alguma coisa caindo e se espatifando no chão, depois, uma porta batendo, por fim, Bruna vomitando, vomitando até não parar mais.

***

Por Onde AndeiOnde histórias criam vida. Descubra agora