Do inferno ao céu

253 52 19
                                    


Capítulo doze

Rodrigo

Eu estava levando a Michele para a clínica da médica dela, com o coração destroçado e com o pensamento em apenas uma coisa: no olhar de decepção que a Samira me lançou quando eu gritei com ela. E não estou sabendo lidar com essa situação, não estou fazendo o bastante para fazer a Samira feliz e nem apoiando a Michele como deveria. E pensando na Michele, não tem como não me lembrar da certeza com que a Samira a acusou de estar mentindo. Por um breve momento, olho para a mulher ao meu lado e a vejo serena e em paz, não enxergo ali, nem um pingo de dor ou desespero para chegar a médica, como ela estava demonstrando ainda a pouco e então as palavras da Samira começam a martelar na minha cabeça. E me vem à memória, que nunca vi um exame de gravidez, nem um ultrassom ou nada que pudesse comprovar que a Michele estivesse realmente grávida. Fui logo acreditando no que ela me disse, caindo em desespero e assumindo algo que eu nem se quer tenho certeza se existe.

Não! Ela não pode estar mentindo. Eu a conheço há anos e sempre foi uma pessoa de ótima índole. Ela não pode estar mentindo para mim! Mas mais uma vez o olhar raivoso e indignado da Samira me vem à memória e me lembro de que a Samira também tem uma índole inquestionável e não acusaria alguém se não tivesse certeza. E aí a duvida me consome agora que parei para pensar. Mas por que a Michele inventaria isso? Só para ficar comigo?

Lembro-me que as vezes que a levei ao médico, não entrei na sala, ela nunca permitia e sempre dizia que tinha vergonha. E a médica sempre pedia para eu fazer a vontade dela, além de que, quando ela chegava com dor logo ia embora e dizia que era só tomar o remédio que eu nunca a vi tomar.

Em um momento de desconfiança decidi ligar para a minha irmã e perguntei se a amiga dela, que era ginecologista, estava de plantão hoje, ela me confirmou e eu peguei a estrada que dava para o hospital da cidade.

— A clínica da doutora Ana Maria é para o outro lado, Rodrigo.

— Eu sei, estou te levando para o hospital.

— Eu não posso ir para o hospital! — Ela disse assustada.

— Por que não? A amiga da minha irmã está de plantão e ela é ótima. Essa dor que você sente não deve ser normal, Michele.

— É normal sim. A minha médica já disse que é. Eu não vou passar por uma médica que eu não conheço. — Ela parecia em pânico e isso aumentou a minha desconfiança.

Mantive-me em silêncio e dirigi até o hospital. Quando cheguei lá, desci do carro, dei a volta nele e abri a porta para a Michele descer.

— Vamos?

— Eu já disse que não vou, Rodrigo.

— Michele, estou começando a achar que a Samira estava com a razão.

— Você está desconfiando de mim? — Ela começou a chorar.

— Ainda não, mas vamos passar com a médica que eu conheço e ver o que é essa dor que você sempre tem.

— Não vou.

— Então aí, eu realmente desconfio que essa gravidez é uma mentira.

— Não! Não é uma mentira. Só quero passar com a minha médica. Por favor, Rodrigo, me leva daqui? — Ela estava visivelmente alterada e nervosa.

— Levo, depois que a médica da minha irmã te examinar e ver se está tudo bem.

Eu estava relutando em acreditar que a Michele, que era a minha amiga, seria capaz de armar essa mentira, envolvendo um bebê e me separar da Samira. Mas a relutância dela estava me dando essa certeza e com isso eu não parava de pensar na Samira e no olhar que ela me lançou antes de me deixar.

DEGUSTAÇÃO De repente meu  anjo - Série AngelsOnde histórias criam vida. Descubra agora