Segunda-feira,6 de março à 13 de março .

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Segunda-feira, 6 de março

Não sei por que o aniversário do Seu Antônio Eulálio não foi festejado
ontem na Palha, como de costume. De fora só estiveram Seu Olímpio Mourão,
a família de Seu Marcelo, Elvira e eu. Tivemos tanta coisa boa e comemos à
grande.
Houve também no jantar uma novidade que Seu Guerra preparou para
caçoar comigo, como é costume dele. Veio na sobremesa um copo com um
doce bonito dentro. Eu encho a colher e ponho na boca. Tomei um susto e todos
caíram na gargalhada. É uma coisa que aconteceria a qualquer, pois nenhum de nós conhecia. Chama-se sorvete e é feito de gelo.
Depois disso veio ainda outra invenção de choque elétrico. Todos davam a
mão e um segurava numa máquina. Laurindo e Seu Guerra seguraram minha
mão de cada lado e não largaram, apesar de meus gritos, enquanto Inhá não
levantou de seu lugar e fez parar a máquina.
Nunca vi casa para ter tanta novidade e tanta gente má como ali. Eles
inventam tudo que podem para judiar comigo e com Elvira. Mas eu gosto tanto
de tudo lá. É tão diferente das outras casas. Penso que é Seu Luís de Resende
que põe aquela gente tão diferente de todos. Meu pai diz que é dinheiro muito.
Mas Seu Marcelo e tio Geraldo também têm dinheiro e a casa deles é um
enjoamento.
Todos na família ficam com raiva de eu deixá-los para estar sempre na
casa de Jeninha. Mas eu gosto tanto de me divertir e só lá é que a gente se
diverte. Depois eu penso que eles gostam muito de mim. Não fazem coisa
alguma sem mandarem me buscar.

Quinta-feira, 9 de março

Meu pai achou graça de eu dizer que estava com inveja de Luisinha sair à
rua, de lenço na cara.
Não desejo ter dor de dente porque vejo todo o mundo chorar tanto, que
penso que há de doer muito. Naninha, quando tem dor de dente, põe a casa toda
maluca. Tia Agostinha fica só rezando e fazendo promessa, com medo de
Naninha enlouquecer. Ela grita, rola no assoalho, bate com a cabeça na parede,
que a gente pensa que é doida do hospício. Outro dia os gritos foram tantos que
a gente da rua entrou para acudir; ela xingou a todos e foi rolar na horta.
Ninguém sabe o que se há de fazer para aliviar dor de dente. Arrancar,
ninguém pensa nisso, depois do que aconteceu à filha de Dona Augusta. Ela
gritou muitos dias de dor de dente. O pai, já desanimado, chamou o dentista
para arrancá-lo. Ele arrancou e a pobrezinha só teve pouco tempo de alívio,
para depois morrer de uma morte horrorosa: ela endureceu toda, os dentes
cerraram e a cabeça envergou para trás até ela morrer.
Luisinha teve esta semana uma dor de dente de gritar. Mamãe a fez
bochechar com água com sal, pôs rapé no dente, pôs creosoto e nada serviu; foi
Siá Ritinha que a curou de um modo esquisito. Deu-lhe um purgante de óleo e
no dia seguinte a cara inchou e ela não chorou mais. Hoje ela queria sair à rua
sem lenço na cara e mamãe ficou horrorizada só com a ideia, com medo da
cara estuporar. Eu acho que é por isso que Belinha de Seu Cula vive a vida
inteira de lenço amarrado na cara. Hoje eu tive vontade de sair com lenço na
cara como vejo os outros fazerem, mas mamãe não deixou.

Sábado, 11 de março

Nós temos muitos tios e ainda chamamos de tios os primos velhos. Hoje

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⏰ Última atualização: Nov 20, 2017 ⏰

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