Trabalho Forçado II

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A barraca de Valéria era a maior e mais luxuosa. Havia móveis, tapeçarias, e até vários cômodos. Atrás da mesa estava um sujeitinho pequeno e encapuzado. Era esmirrado demais para ser um anão, tinha proporções esquisitas que não combinavam com uma criança. Syrun franzia a testa tentando decifrá-lo.

Ele limpou a garganta ruidosamente — Lorde Syrun de Norax'iam, finalmente nos conhecemos. — disse a voz raspada.

— Não sou lorde, coisa nenhuma. E quem é você?

— Berinstarg Vioranu — estendeu a mão para fora do manto vermelho escuro. Era branca gelo, cheia de manchas escuras e veias azuis.

Syrun torceu ligeiramente os lábios. O que era aquilo? Um morto-vivo? Um necromante lacorês? Tocou-o e surpreendeu-se por ser uma mão bastante quente.

— O que quer comigo?

— Ora, o que mais? Contratá-lo.

— Pode acertar os detalhes com ela, ela quem manda em tudo, sabia?

— Pode ser, mas quem vai fazer o serviço é o senhor, então, eu quero discutir os detalhes de execução com você, correto? — ele falava um axiano carregado de um sotaque estranho... Não era lacorês, nem keldoriano, muito menos de Griss ou Yrquônia.

— De onde você vem? Mostre seu rosto.

— Venho de uma cidade desconhecida e quanto a meu rosto, os humanos não nos acham nada bonitos.

Berinstarg retirou o capuz. Era pálido e feio. Os olhos negros com a pupila vermelha. A pele era rugosa e cheia de manchas, perebas e abcessos. Lindão seria um galã perto daquela pequena aberração.

— Escute Berestern...

— Berinstarg, mas pode me chamar de Bérin.

— Você é algum tipo de morto-vivo? Demônio?

O pequenino deu uma gargalhada — Ah, não. Não senhor! Sou um guardião. Somos tão reclusos que vocês devem ser os primeiros humanos a nos ver em séculos. Para começar, veja quantia que deixei com sua esposa.

Havia um saco de veludo negro sobre a mesa e Valéria derramou o conteúdo. Eram algumas dúzias de pedras preciosas. Aquilo devia valer umas cinco vezes o que ganharam em Otrin.

— Para começar, você diz...

— É.. tenho muito mais, se estiver interessado em trabalhar para mim.

— Ora, mas naturalmente — retrucou Valéria, seus olhos brilhando cobiçosos.

— O que quer? — indagou Syrun sentindo uma coceira incômoda nas bolas e um nó na garganta. Sentia que havia algo errado além da aparência grotesca do sujeitinho.

Bérin puxou um objeto de dentro do manto. Era uma gema enorme e que pulsava com energia mágica.

— Preciso que me levem, junto com isto, para Lacoresh.

— Ora, com maior prazer. Tomaremos um navio e em poucos dias...

— Não, nada de navios! Eu sou alérgico a navios.

— O que? Alerigino?

— Quer dizer que não vamos de navio, de jeito nenhum. Vamos por terra.

Syrun deu com os ombros. — Essa viagem pode levar até umas três semanas. Sem falar que atravessar os ermos em Lacoresh pode ser fatal nesses dias.

— É por isso que estou pagando bem, certo?

— Quanto mais disso aí você tem?

Bérin tirou um outro saco mais volumoso de sua bolsa.

O Bando de ValériaOnde histórias criam vida. Descubra agora