Embarcados - I

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Mover todo o bando até Lacoresh seria inviável. Valéria deixou boa parte das tropas contratadas à nobreza de Griss. Depois, tomaram um navio a despeito dos protestos de Bérin.

Ele esbravejava amarrado no mastro.

— Vocês são burros, ou o quê? Se formos de navio, vamos todos morrer!

Syrun disse mau humorado — Alguém pode amordaçar esse molequinho?

Pirralho tinha um olhar maligno — Eu faço ele calar a boca, chefe.

— Melhor não... Lindão, você cuida disso.

— Isso — Cascalho deu uma gargalhada — Amordace seu filho.

— Hilário! Você demorou quantos dias pensando para soltar essa?

Enquanto discutiam, Mona chegou perto do pequenino.

— Não precisa ter medo, apenas um em quarenta navios afundam.

— Eu não tenho! Será que ninguém aqui tem um cérebro para entender o que estou dizendo?

— Não é medo?

— Isso é o que aquele seu líder estúpido pensa! — Bérin babava de raiva. — Eu apenas disse aquilo enquanto estava com tudo sob controle! A verdade é que pelo mar, ficará mais fácil nos localizar e nos emboscar.

— Quem?

— Quem você acha, cabeça de vento? Os demônios!

— O chefe mandou amordaça-lo, Mona. — Lindão ajoelhou-se ao lado de Bérin.

Mona foi ter com Syrun enquanto os marujos preparavam a nau para zarpar.

— Meu senhor, — disse a feiticeira com cautela — isto pode ser um erro.

— Falou com aquele porcariazinha? Eu não caio mais em suas mentiras. Ser atacados por demônios no meio do mar?

— Não seria impossível.

— As hordas agem caoticamente.

— De todo modo, é um risco.

— E quem garante que ir por terra não seria pior?

Mona deu com os ombros. — É o senhor quem manda...

Ele sorriu. — É, sou. — e o assunto estava encerrado.

Zarparam. Syrun já conhecia o capitão do navio, ficavam em sua cabine bebendo e contando casos. Valéria detestava o mar e ficava enjoada quase o tempo todo. Trancava-se na pequena cabine. Dividia com umas poucas esposas de Syrun que embarcaram, entre estas, sua mais recente conquista, a jovem Mirna. Ela já duvidava que abandonar sua família tivesse sido a melhor coisa a fazer.

O resto do bando jogava para se enturmar com os marujos grissinenses.

Mona estava tensa. Logo no início, salvou a vida do pequeno Bérin, que quase sufocou com o próprio vômito estando amordaçado. Lavou-o com um balde de água salgada. Ele não falava muito, mas ela estava curiosa sobre a sua origem. Quem era seu povo? Onde viviam? Eram guardiões de que? Por que, além de umas poucas lendas, não se sabia nada sobre aqueles sere?

Bérin era mau-humorado. Enjoado e amarrado, era pior ainda. Não respondeu às perguntas da feiticeira. Ainda assim, Mona conseguia conversar outros assuntos com ele. Foram-se três dias de navegação em águas tranquilas até que o tempo fechou e enfrentaram uma tormenta.

O capitão estava confiante. O pessoal de Syrun achou que ele era louco, pois ria e gargalhava ao enfrentar a tempestade. Era uma tempestade aterradora. Eram jogados de um lado ao outro bruscamente. Mesmo marujos experientes estavam enjoando. Até os ateus suplicavam aos deuses.

Syrun estava no convés e zombou de Bérin — E aí? Bostinha seca? Mona disse que você não tem medo, é mesmo?

— Você é louco!

Syrun gargalhou em resposta, mas engoliu isto quando o barco escalou uma onda enorme com a proa apontando para o céu. Ele teve que se segurar, enrolando os braços do cordame para não cair, como um marujo há pouco. O navio desceu, afundou na água e uma onda gelada veio, quase afogando Bérin. A nau acelerou como uma prancha para o vale entre as ondas. O navio todo rangia e parecia que ia se desmanchar. Algumas partes se partiam, mas seguia navegando.

— Devia ter oferecido o antídoto antes, seu maldito! Agora vai morrer no fundo do oceano!

— Será um consolo-lo levá-lo junto, desgraçado!

— Ninguém vai morrer — gritou o capitão — Já passei por tempestades piores! Além do mais, o barco ainda nem capotou.

Os olhos de Bérin se arregalaram ante àquela perspectiva. Seu corpo podia ser insensível à dor, mas agora estava apavorado.

— Não se preocupem — voltou o capitão girando o timão furiosamente — eu sei manobrá-lo muito bem.

O capitão berrava ordens aos marujos dizendo para recolher o velame de tempestade, depois voltar a içá-lo conforme a situação mudava. O navio passou a navegar a favor das ondas, os solavancos eram fortes, mas agora, menores. O pior tinha passado.

— Não disse? Era só uma chuvinha de nada. — e caiu na gargalhada.

Bérin escutou um dos marujos resmungando.

— Chuvinha de nada é o caralho!

Syrun cumprimentou o capitão pela bela pilotagem e disse a Bérin.

— Ao invés de se preocupar com demônios, reze a seus deuses para não enfrentarmos outra tempestade pior.

Bérin estava esgotado e abatido. Tinha bebido água algumas vezes e vomitado tudo de volta. Se pudesse vomitar as próprias entranhas, já o teria feito. Syrun gostou de vê-lo daquele jeito. O miserável estava tendo o que merecia. Quanto a mim, tal tempestade não me assustou. Até me animei com a perspectiva de descanso. Descansar no fundo do oceano e ser esquecido era uma ótima perspectiva, mas o destino não queria isso. Seguimos viagem com o capitão resmungando a respeito da burrice do marujo novato que perderam para o mar.

O Bando de ValériaOnde histórias criam vida. Descubra agora