Vaticínio - I

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Era o dia final da jornada. O sol estava alto e a previsão de chegada em Lacoresh era para antes do crepúsculo.

— Veja — apontou Lindão— um bando de pássaros. O que serão? Tamacintos? Parriotins?

— Você é feio e cego, Lindão! Desde quando pássaros tem cauda? — retrucou Pirralho. Ele então bradou. — Chefe! Acho que são demônios! É umas porras de demônios!

Syrun e o capitão saíram da cabine.

— Contei trinta — disse Pirralho.

— Não — corrigiu Mona — são trinta e dois.

O capitão berrou — Combate! Preparem-se todos!

A tripulação tinha vinte e poucos homens e com o pessoal de Syrun não somavam quarenta.

— Mona! Mona! — Bérin gritou desesperado.

A feiticeira foi atendê-lo. — Me desamarre. Eu posso ter mentido, mas posso ajudar numa luta.

— Solta o moleque, Mona. Podemos usá-lo como isca. — decretou Syrun.

Conforme os demônios se aproximavam os reconheci como marlakianos. Lutei muito com aqueles tipos no meu próprio tempo.

Syrun desembainhou Natsui e Fuyui. Então, ele se fez visível para mim, o que era bastante raro.

— Há, olha só isso. — ele disse animado. — Vai ser como nos velhos tempos.

Eu respondi — É... admiro seu ânimo. Mas acho que vão todos morrer.

— Você devia deixar de ser ranzinza e se empenhar um pouco mais, afinal, este é o papel que escolhemos desempenhar.

— Eu não escolhi bosta nenhuma! Fui enganado. Se eu soubesse a verdade...

— Por que eu perco meu tempo tentando convencê-lo, seu velho rabujento?

A proximidade dos demônios fez as espadas faiscarem. E pronto: eles caíram sobre o navio como granizo.

Era um bando de soldados magrelos, focinhos compridos, dentes afiados, alguns portadores de escamas e outros de pelos. Todos eles com asas longas e de aparência frágil. Gritavam incutindo medo. Alguns marujos saltaram ao mar, apavorados. Os que ficaram, foram alvejados por golpes de espadas, lanças, machados e maças. Gritos de dor e morte ecoaram pelo convés, mas para ambos os lados.

O homens de Syrun se engajaram num combate feroz. Cascalho partiu um pela metade, enquanto Lindão derrubou quatro com flechas mesmo antes que alcançassem o convés. Mona não era muito boa com magias ofensivas, mas protegeu seu mestre e alguns companheiros com encantamentos que confundiram os inimigos. Pirralho degolou um deles e defendeu-se de um ataque subsequente de outro. Syrun cortou dois com Natsui em brasas e derrubou três com uma rajada de gelo atirada por Fuyui. Ele sorriu ao ver que depois do primeiro engajamento, aquele combate nem iria durar tanto tempo assim.

— Oh, droga! — exclamou Bérin quando um baú pesado caiu no convés causando um estrondo e furando o piso.

O capitão avançou para tomar pé da situação. Temia que o objeto pudesse ter furado o casco do navio, lá em baixo. Deu uma espiada para avaliar os estragos.

— Não furou, não furou! — ele disse suas últimas palavras, animado.

Um tentáculo rígido e negro saiu do buraco e atravessou sua garganta.

Uma voz horrenda veio lá de baixo dando risadas — Furei sim! Rwa Rwa Rwa! Ah, se furei!

De dentro do baú compacto, um demônio medonho começou a se expandir e crescer.

O Bando de ValériaOnde histórias criam vida. Descubra agora