A dor em seu abdômen sumira feito mágica. Mas os olhos e a cabeça de Robert doíam em protesto do que o homem acabara de sofrer.
Assim que Robert Parker notou estar sóbrio, em seu total juízo, levantou-se rapidamente feito um raio, sentando-se. Apertara a barriga com força, manchando as mãos de algum líquido vermelho. Sangue.
Mas não havia dor.
— O que está acontecendo? — o homem sussurrara, espantado com a camisa social e o jaleco branco estarem encharcados de sangue. A mesma vestimento do dia do assalto. Do dia do tiro.
Parker assustou-se mais ainda ao notar que estava sobre uma grama recém aparada, não o hospital que fora transferido. O ambiente estava escuro, úmido, mas quente. O vento era praticamente inexistente naquele local, pois se via em uma tentativa falha de secar atrapalhadamente o suor que caia na testa e pescoço.
Em uma mistura complexa de medo e curiosidade, Robert levantou-se calmamente, pé por pé, com medo de que algo acontecesse com meu ferimento. Levantou a camisa que usava fechando os olhos com medo do que encontraria, apenas deparando-se com uma mancha avermelhada. Passou os dedos, descobrindo que o ferimento ocasionado pelo tiro que a pouco levara simplesmente sumira.
Sorriu, como algo feito contra sua vontade, ainda com medo.
— O que será que aconteceu?! — irritou-se, sem saber.
O homem colocara as mãos na cabeça, tentando lembrar-se do que acontecera. Apenas lembrava-se do tiro, dar dor agonizante que sentira e a infeliz sensação que morreria. De que perderia tudo aquilo que conquistou.
— Robert? — alguém ecoou, a distância.
O homem surpreso, gritou em resposta:
— OI! EU ESTOU AQUI! ALGUÉM PODE ME AJUDAR? POR FAVOR!
Parker começou a correr a procura da voz desconhecida. Correu, correu, mas nada encontrava. Gritou até a sua voz começar a desaparcer em protesto. Minutos depois da corrida, sentindo suas pernas latejarem e o ar faltar em seus pulmões, avistou apenas duas silhueta frágeis. Quando se aproximou, percebera que era seus pais.
O ar ainda estava muito úmido, mas o céu contemplava um estrelado único, feito purpurina que acabara de cair em uma cartolina escura.
— Mãe? Pai? O que está acontecendo aqui? Onde estamos? — dissera, feliz por reconhecer os rostos tão conhecidos.
Sua mãe, uma senhora de setenta anos, sorria com ternura. Aproximou-se de Robert dando-lhe um abraço apertado. Beijou cada uma das suas bochechas, sussurrando um "eu te amo" em seu ouvido. Já o senhor Parker, apresentava um semblante raivoso; mas logo foi desfeito por um sorriso caloroso. Puxou o filho para um abraço com certa brutalidade, dando-lhe tapas das costas.
— Pai? O que está acontecendo? — o homem ecoava abafado pelo abraço, sem saber o que estava acontecendo.
Após os braços bem dados e palavras calorosas, os pais de Robert saíram para longe do filho, de mãos dadas, ignorando as perguntas apavoradas do homem.
Nesse momento, Parker já tinha lágrimas nos olhos de puro desespero.
Robert não teve nem tempo de pensar, já que choros ecoavam a distância. Eram suas gêmeas. Ele saberia em qualquer lugar do universo. O homem correu a procura das filhas, que ainda choravam dolorosamente.
Parker encontrou um berço a distância. Aproximou-se de suas filhas, vestidas apenas com bodys cor-de-rosa, que agora já pararam de chorar. Ambas agora sorriam para o pai, mesmo com os olhos ainda recheados de lágrimas e com bochechas avermelhadas. As gargalhadas eram felizes, mostrando sem vergonha suas boquinhas sem dentes. O homem as pegou no colo, com certa dificuldade pelas gordurinhas que as meninas ostentavam, beijando-as nas bochechas gorduchinhas.
— Eu as amo demais. — ele sussurrou para as bebês, que puxavam os cabelos e a gola do jaleco. Era impossível estar triste com elas no colo, o homem conseguira constatar. Seus problemas simplesmente desapareceram-se, apenas por vê-las bem.
Ainda com as meninas nos braços, Robert escutou um choro baixinho. Não eram de Helena e Cecília, suas filhas, então desesperou-se novamente. As colocou com cuidado no berço, dando-lhes uma beijo carinhoso.
Voltou a andar, a procura do choro sofrido.
O homem encontrou alguém sentado na ponta do penhasco, com costas tremendo que facilmente revelavam estar chorando. Era uma mulher, de cabelos longos e escuros feito o céu estrelado e aparência frágil. Suzie.
— Suz? — Robert pronunciou, feliz em vê-la mas triste pela mulher estar chorando.
O homem sentou-se ao lado da esposa, a abraçando de lado. Fez com ela apoiasse a cabeça em seu ombro, enquanto a fazia carinho. Suas mãos subiam e desciam pelas costas da moça, confortando-a.
— N-não me abandone, R-Robert... — a moça implorou, chorando ainda mais. Os soluços estavam presos em sua garganta e ela tentava liberá-los através de palavras mal entendidas.
Ele espantou-se.
— Nunca vou te abandonar, meu amor. Eu juro.
Tomou o rosto da mulher nas mãos, vendo seu desespero claro.
— Eu te amo muito.
Suzie o abraçou com força, logo selando seus lábios contra os do marido. Aquilo carregava uma dor gigantesca, como em uma despedida.
Era a tenebrosa despedida do casal.
— Você precisa ir. Infelizmente. Eu sempre o amarei. — Suzie disse, tristonha.
Robert Parker entendeu o que aquilo significava.
Beijou novamente a esposa e observaram juntos o céu estrelado misturando-se com o mar revolto enquanto suas pernas caiam pelo penhasco, deliciando-se com suas meras despedidas.
O homem levantou-se querendo ficar, mesmo sabendo que isso já não era mais possível. Voltou a andar ao seu locar de partida, calmamente.
Porque Robert Parker já fora à muitas horas.
Ele apenas precisou se despedir.
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Ele não volta para casa hoje
Historia CortaUm conto triste sobre a linha tênue que é a probabilidade de estar vivo.