Na noite seguinte, a ansiedade levou Bento a ir mais cedo de encontro à sua amada.
O desespero pulsou em algum lugar dentro de si quando ele encontrou a janela fechada e a cama vazia.
Onde ela poderia estar?
O sentimento de urgência tomou conta de sua mente o fazendo olhar todos os lados e cogitar todas as hipóteses.
Ela havia acordado com marcas de presas no pescoço, isso poderia tê-la assustado imensamente, ela devia ter ido a algum lugar buscando ajuda.
Na angústia de estar diante da possibilidade de nunca mais vê-la, Bento pulou da sacada apoiando-se no guarda-corpo de metal enferrujado, pousando no chão habilmente como um gato.
Ignorando a possibilidade de alguém o ter visto, rumou a passos firmes decidido a encontrá-la.
Ao virar a primeira curva daquela viela imunda, percebeu um corpo vindo rapidamente em sua direção prestes a se chocar com o seu.
Utilizando da agilidade que a morte lhe concedera, segurou a pessoa firmemente pelos ombros para evitar o choque e sentiu imediatamente a fragrância que soltava de sua pela.
Fitando o rosto pálido ornamentado pelo cabelo dourado preso em um coque, se deliciou com o vermelho que se alastrou por suas bochechas sentindo a imensa satisfação de tê-la encontrado.
Os olhos, arregalados pelo susto, brilhavam como duas preciosas pedras de topázio.
Bento tencionou todo o seu corpo ao ouvi-la sussurrar: "me desculpe".
Ele queria arrastá-la para algum canto e se deliciar no saboroso líquido que corria por suas veias.
Queria enfiar os dentes naquela pele macia e ouvir os gemidos de dor.
Descendo os olhos ao seu pescoço, notou o lenço rosado amarrado ali para esconder a marca de suas presas.
Contra toda a sua vontade, soltou-lhe os ombros e deixou os seus braços caírem resignado ao lado de seu corpo.
"Tudo bem", sussurrou ele de volta saindo do caminho para que ela passasse.
Com um sorriso agradecido, ela passou por ele entrando no prédio sem olhar atrás.
Aguardando em um canto imerso em trevas, Bento observava atentamente os movimentos vindos do sexto andar.
Viu quando a luz do quarto se acendeu e viu quando se apagou.
Viu quando a janela permaneceu fechada e viu quando a televisão desligou.
Aguardou mais um pouco até que ela adormecesse e então se permitiu aproximar-se.
A porta cedeu novamente a seu comando e se abriu lhe concedendo acesso ao quarto perfumado.
Ela cheirava como a vida, quente e feliz.
Ele se aproximou agachando-se ao lado dela, deslizando os dedos pelos longos cabelos macios e saboreando a bela visão da mulher adormecida.
Ele a queria, só para si.
Deixá-la ali era como entregar seu próprio coração aos vermes e permitir que eles o comecem sem piedade.
Abaixando-se, Bento acariciou os lábios dela com os seus.
O atrevimento enviou uma onda de ardência pela sua garganta que ele suportou como um mártir.
Com a língua ele umedeceu aquela boca semiaberta antes de beijar a face corada.
Ele a amava.
Afastando o cabelo do pescoço, encontrou as pequenas feridas ali, e como que para manter sua marca nela, afundou as presas naquele mesmo lugar, sentindo a ardência em sua garganta aliviada pelo delicioso liquido como o sofrimento de um mártir pela sagrada visão beatífica.
E ele bebeu.
Sugando a vida dela para dentro de si.
Buscando a satisfação de um coração batendo e as delícias dos pulmões cheios de ar.
Sugou até senti-la cada vez mais longe, cada vez mais oculta pelo véu da morte.
Afastando o rosto do pescoço e olhando a face feito mármore, Bento se agarrou ao último fiapo de vida que a mantinha com ele.
Rasgando seu próprio pulso com os dentes, verteu as gotas vinho na boca rosada e esperou.
Olhou-a inconsciente em seus braços enquanto o destino fazia seu trabalho.
Olhou-a enquanto a vida ia embora, enquanto o coração parava de bater e enquanto o frio e a escuridão tomavam o que agora lhes pertencia.
Quando já não restava mais calor e a morte já havia feito sua parte, Bento, ao ver os outrora olhos topázio se abrirem como rubis, sussurrou apenas:
"Perdoe-me".
***
Oi para todo mundo que chegou até aqui!!!
Muito obrigada pela chance que deu a "Sangue de Amor".
Esse é meu segundo conto e ainda não sei como estou me saindo, RS. Então, se você gostou ou tem uma crítica a fazer, me diga nos comentários para que eu possa me aprimorar.
Esse feedback é muito importante para mim.
Aah, e não esqueça da estrelinha :-*
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Sangue de Amor
Short StoryBento, um vampiro acostumado somente a solidão e as trevas, se vê completamente obcecado por uma mulher.