POV - Fernando Haddad
A reunião começava aos poucos a ficar quente, à medida que mais convidados iam chegando, rodinhas de conversa se formavam ao longo da penumbra da sala.
Todos pareciam estar empolgados, afinal, não era todo dia que podia-se encontrar tanta gente escolhida a dedo, interessante e influente do atual cenário político brasileiro sob o mesmo teto.
Entre sorrisos, sussurros, taças e mais taças de champanhe e doses generosas de whisky, quantas ligações e acordos seriam firmados?
" A natureza desses conchavos nem sempre é política, meu caro Fernando Haddad." - Ciro Gomes passou o braço em torno de meus ombros, brindando com meu copo. Seu rosto enrusbecido pelos vapores do álcool exibia um sorriso malicioso.
Mas muitas vezes uma coisa levava à outra.
Bons relacionamentos interpessoais de vez em quando geravam frutos bastante rentosos na política, Gomes explicou."E vice versa. Hehehe..."
Justamente esses tipos de acordo que o motivavam mais. Animal social, como ele próprio se declarava, movido a bom sexo e bons drinks.
Meu amigo estava em seu ambiente, com cachaça arregada e rodeado de belas mulheres - Aliás, como ele as fascinava ! Nunca pude entender como um tipo tão chucro, machista e grosseirão exercia aquele poder sobre as fêmeas.
Contudo, eu não o invejava nesse aspecto. Primeiramente por ser muito bem casado, tivera a sorte de desposar uma mulher que era minha companheira ideal. Segundo, porque as damas que ele atraía não faziam meu tipo: Lindas por fora, ocas de conhecimento, sem empatia pelo próximo e rasas psicologicamente. Até porque a mulher que tivesse um pingo de vergonha na cara não se envolveria com um crápula daqueles.
" Olhe." - Ciro me puxou pelo braço de súbito, fungando. - " Aquela menina novinha acolá, a morena de azul, encostada na parede, toda avexada, a pobre."
Volvi a atenção na direção que me indicou e o olhar da moça colidiu com o meu. Ela se assustou e baixou os olhos, desenxabida.
Agarrada a um copo de bebida forte, era um peixinho fora d'água, fingindo interesse em analisar ora os próprios sapatos ora o padrão do assoalho.
" Se está aqui, naturalmente veio a seu convite. Por que não tenta a enturmar?" - Questionei, surpreso com a falta de traquejo social do homem que se dizia um grande anfitrião.
Gomes abanou a mão no ar, em desdém.
" Se chama Lavinia. Uma matuta do interior do Estado do Rio de Janeiro, caloura de Direito da USP e sobrinha postiça de um coroné que depositou um ou dois milhões aí no caixa da minha campanha. " - Fez uma pausa, passando a mão pelos cabelos grisalhos - " Aliás, esse bate coxa aqui é em homenagem a ela por ter passado no vestibular, e tá sendo tudo bancado pelo sujeito."
Clóvis Mattos era o nome do velho magnata. Fizera fortuna no ramo de Construção Civil, não tivera filha mulher e por isso a parenta da esposa era seu ai Jesus.
O sonho da jovem era conhecer Ciro Gomes. Seu rico patrocinador não o dissera com todos os pontos e vírgulas, mas é claro que a polpuda ajuda financeira estava vinculada à apresentação e conhecimento dos dois.
" De alguma forma, a tinhosa convenceu o tio de que o interesse dela na minha humilde pessoa é puramente profissional, devido a essa irrepreensível carreira, posso ser uma boa influência... - Passou a língua no lábio inferior, em seguida rindo baixo, acrescenta - " Mas o que ela quer é o que todas querem: A minha rola. Temperada de romance, claro. Ui, tadinha da cabocla, tá apaixonandinha..." - Debochou, fazendo biquinho.
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Beijo Triplo - Haddad + Ciro + Personagem Original
FanfictionNos bastidores da política brasileira, poder, dinheiro e prazer ditam as normas do jogo. Em meio a reta final da campanha eleitoral, os amigos Ciro Gomes e Fernando Haddad se envolvem em um triângulo amoroso com a sobrinha de um rico empresário. Por...