De todas as coisas estranhas que teria de fazer em seu primeiro ano no ensino médio, esconder um filhote de gato na mochila definitivamente não estava nos planos de Otabek. Agora mesmo eram exatamente três e quarenta da tarde e era sua primeira vez fora do internato, sozinho, andando livremente pelas ruas de uma Moscou de fim de inverno, quando supostamente deveria estar frequentando as aulas do período vespertino. E aquilo não poderia ser obra de ninguém mais a não ser seu peculiar colega de quarto: Yuri Plisetsky.
"Otabek, eu preciso que saia e compre umas coisas pra mim." – ainda se lembrava do tom marrento do loiro, ao praticamente jogar sobre si uma lista de compras e o empurrar para fora do quarto, sem muita cerimônia. Suspirou cansado, pensando em como as coisas estavam difíceis para si desde que conhecera formalmente o famoso morador morto do 305. A surpresa da existência do fantasma havia vindo para si como um baque, junto de inúmeras exigências, constantes inconvenientes e regras que lhe pareciam absurdas, sendo um espírito a exigi-las.
Mas, apesar dos incontáveis pontos negativos, ainda assim não poderia afirmar que detestava a experiência, muito pelo contrário: Otabek sabia apreciar a companhia de seu colega de quarto, apesar de sofrer nas mãos do russo. Yuri não era nem um pouco fácil. De todas as pessoas com quem havia lidado, aquele loiro era o que tinha a personalidade mais forte, sempre arranjando briga, sempre discutindo consigo, sem lhe dar uma única brecha para se aproximar, como um gato arisco e teimoso. Entretanto, o moreno preferia daquela forma. Soava para si como um belo desafio conquistar a confiança do loiro.
Desafio esse tão grande que até mesmo a escola toda reconhecia o "talento" do cazaque para com a assombração terrível que assolava o dormitório masculino. Só nessa semana havia conversado com cinco veteranos, ex-moradores do 305, dos quais ganhou o título "Otabek, o domador de almas penadas". Riu consigo mesmo pela lembrança, especialmente pela cara feia que Yuri fez quando contou a ele do ocorrido. Parecia que o mais velho tinha comido algo muito ruim, a ponto de poder lhe dar dor de barriga por séculos.
E por falar no dito cujo, já fazia três semanas que estavam naquele pé de guerra: Otabek dormindo no sofá, acordando sempre com dor nas costas e irritado, e o bonito ficando na cama com todas as mordomias, lendo livros a noite toda – já que fantasmas não dormem –, fazendo a linha intelectual, enquanto devorava caixas e mais caixas de bombons de licor importados, caríssimos, que obviamente saíam do bolso do moreno. E ele sequer podia reclamar! Bastava falar um a para o outro soltar um "Foda-se, você concordou com isso, agora me aguente". Yuri era tão folgado que ultrapassava qualquer limite existente.
O calouro preferiria poder dormir confortavelmente na cama, mas, como tinham um acordo, não havia o que fazer a respeito, ao menos não naquele momento inicial. Talvez com o tempo viessem a decidir algo mais justo, mas aquilo tudo ainda era muito recente, para ambos. Otabek ainda tentava digerir o fato de que estava morando com um fantasma. E não qualquer fantasma! Um fantasma que mais parecia um demônio, extremamente bonito, com aqueles brilhantes olhos verdes que lhe davam arrepios no fundo da alma todas as vezes que se voltavam para si.
Não eram arrepios ruins.
Não. A sensação que aquele olhar inquisidor lhe dava era totalmente diferente de algo perturbador. Na verdade, Yuri parecia querer traga-lo por inteiro cada vez que o olhava, convidando-o a se afogar no mar tempestuoso que era e a enfrenta-lo, encontrar o tesouro perdido no meio daquelas águas desconhecidas.
Otabek gostava daquilo, apesar da confusão mental que lhe causava, já que os atos de Yuri eram totalmente opostos ao que seu olhar dizia. Não bastasse o caos que sua mente havia se tornado desde a chegada arrebatadora da assombração, vinha tendo ainda "sonhos estranhos" com o colega de quarto e tinha quase certeza que se tratava de seu sonambulismo, apesar de nem Otabek nem Yuri comentarem sobre os ocorridos pela manhã.
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O Fantasma do Quarto 305
FanfictionOtabek, de 16 anos, é um primeiranista num internato de alto padrão na capital da Rússia. Havia mudado de escola para recomeçar do 0 e, dessa vez, tentar manter uma reputação boa em sua vida escolar, almejando ter paz e tranquilidade. Mas qual não s...