Otabek havia perdido o horário de almoço. Já passavam das três da tarde e o cazaque não tinha ido ao refeitório pra almoçar, o que significava que teria de comprar alguma besteira fora do internato ou esperar o jantar pra poder ter uma refeição decente. O motivo pra não ter ido atrás do seu tão amado spaghetti alle vongole servido naquela sexta? Ele estava com Lee, na biblioteca privada da direção da escola, onde todos os arquivos de todos os anos estavam guardados. E já fazia horas e horas que ambos aproveitavam a companhia um do outro ali naquele espaço poeirento, pequeno e cheirando a mofo.
— Devagar, Altin! – o coreano quase berrou, não fosse pela lembrança de que estavam escondidos ali – Aí, aí! Para aí!— Tem certeza, Lee? Não quer que eu continue? Não parece o lugar certo... – comentou, os olhos grudados no moreno suando acima de si.
— Tenho! Está aqui, veja só! – o veterano virou-se na escada em que havia subido, o rosto pingando suor pelo calor da pequena sala, uma animação repentina tomando conta de si ao mostrar um compilado de arquivos que havia achado sobre o ano de 1987.
— Amém, não aguentava mais empurrar a escada. – Otabek comentou, deixando escapar um suspiro de cansaço enquanto ajudava Lee a descer os degraus com a papelada em mãos.
Ambos se direcionaram a uma mesa de estudos, acendendo a lâmpada da luminária e colocando os arquivos sob a luz. Em segundos o coreano já devorara as palavras escritas em cada uma das folhas amareladas, os olhos escuros como breu varrendo as páginas em busca de algo em específico que precisava confirmar. Otabek, por sua vez, observava o veterano impacientemente. Ele estava com fome, portanto, estava mal humorado. Sua cara estava ainda mais fechada do que normalmente era, mas ele tinha motivos pra isso, porque, verdade seja dita, quem gostaria de ficar cinco horas respirando pó e ar mofado em busca de um bando de papéis velhos que poderiam acabar nem dando informações cruciais sobre o caso? Ele não era tão paciente assim, mas Lee era.
Lee tinha um amor incondicional por investigações e ele passaria dias fuçando aquela biblioteca se fosse necessário. Felizmente, com Otabek o ajudando, ele não levava tanto tempo assim pra achar as coisas das quais precisava, o que era realmente ótimo. Desde que havia ingressado no internato, o coreano tinha sentido uma imensa vontade de solucionar o caso do fantasma injustiçado e ele nunca esteve tão perto como estava agora. Aquilo era realmente incrível!
Suas pupilas dilataram assim que os olhos pararam sob uma das páginas amareladas, o dedo apontando para uma foto 3x4 um tanto amarelada nas bordas, ainda que suas cores estivessem razoavelmente conservadas. Na foto aparecia um rapaz loiro, o mesmo tom de cabelo de Yuri, olhos claros e pele alva, cara de bravo, o rosto um tanto quadrado, usando o uniforme da escola. Logo embaixo da fotografia estavam escritas algumas informações sobre o garoto: Andrei Golubev, 19 anos – turma 3-A.
— É ele, Altin! Ele é o líder do grupo que matou o Yuri. – afirmou o moreno, um sorriso atípico tomando conta de seus lábios, quase como se fosse uma criança numa loja de doces.
— E como sabe disso? Como pode ter certeza? – um Otabek entediado perguntou de volta, recostado em sua cadeira, os olhos agora fechados, tentando se concentrar em se esquecer de sua fome.
— Ele foi fotografado na noite do crime. Meu pai tirou uma foto onde ele aparece, mas só a foto não o incriminaria, porque ele não estava fazendo nada de suspeito no momento. O fato é que, supostamente, todos deviam estar no baile de Halloween de 1987 quando a foto aconteceu, mas esse cara, Andrei, e mais um outro que vou procurar por aqui, apareceram nela, o que comprova que eles não estavam junto com o resto dos estudantes. – o coreano falou rápido, enquanto já passava a folhear novamente os arquivos, após arrancar a página com a ficha de Andrei.
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O Fantasma do Quarto 305
FanfictionOtabek, de 16 anos, é um primeiranista num internato de alto padrão na capital da Rússia. Havia mudado de escola para recomeçar do 0 e, dessa vez, tentar manter uma reputação boa em sua vida escolar, almejando ter paz e tranquilidade. Mas qual não s...