Minhas Teologias

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MINHAS TEOLOGIAS

            Acredito mais nos mistérios que nas evidências

            Pois elas, em sua nudez, nada mais velam nem revelam

            Não há charadas numa lógica matemática

            Aposto sem medo de perder as fichas e o bilhete de loteria

            Num Deus Criador de barbas brancas, o bom velhinho

            De halo triangular, o Senhor das Horas

            Imune às dores do tempo, pois ele é Tempo

            Junto com o Galileu sábio, Jesus de Nazaré

            Que muito pensou nas areias do deserto

            E cujas palavras, como trovoadas, sacudiram a montanha

            Veio, como os filósofos,

            Para consolar (os amigos) e incomodar (os poderosos)

            E há o Holy Ghost, o Fantasma Sagrado do Espírito

            Que para mim é a chama

            A explodir nos instantes de alegria e prazer

            Mas o Divino está longe dos meandros e dos caminhos

            Do mundo da matéria e das mudanças

            Por isso Maria é nossa medianeira

            Mas também é mãe tanto dos afortunados, quanto dos órfãos

            Pois nós, nobres mortais, carecemos da bênção da perfeição

            E necessitamos dum puxão de orelhas vez ou outra

            Não apenas oro; também dialogo

            Questiono

            Inquiro

            Oração não é silêncio, é fórum

            Prece não é súplica, é dialética

            Delicio-me com as balas de sabedoria

            Do venerando Bento Abade

            Sou amigo de Francisco de Assis,

            E estimo a amizade deste homem, amigo dos pássaros e dos gatos

            Admiro a solidariedade de Camilo de Lélis

            E a inteligência de Tomás de Aquino

            Sou, como Agostinho de Hipona, um ser cheio de dúvidas

            Sonhando como João da Cruz

            Mas ainda distante da perspicácia e da agudeza

            Do espírito da bela Teresa d’Ávila

            Quisera eu ter o intelecto de Paulo de Tarso

            Ou os dedos de poeta de Francisco de Sales?

            A coragem de Vicente de Paula

            Ou a eloquência de Fernando de Bulhões, Antônio de Lisboa ou de Pádua?

            Rodeiam-me os anjos

            Anjos de carne, querubins de ossos, serafins perfumados, potestades vivas

            Sem asas; mas para que precisariam delas?

            Pois eles são mais necessários aqui no chão do que nos recessos das estrelas

            Os anjos que me guardam riem, choram, alegram-se, entristecem-se

            Sofrem de paixões

            E são arcanjos sexuados, alguns deles são garotas

            E não se dividem em coros

            Há uma gota mística desde a mais ínfima partícula quântica

            Até o cume da abóbada da mais majestosa das catedrais

            A Verdade está no meio

            Só não gosto de homem de mitra e cajado

            Com timbre vociferante de exegeta

            Prometendo o enxofre e reclamando de cada letra

            E falanges de encapuzados de branco

            Que choram e rangem os dentes

            Cheios de sangue

            Infelizmente, há um feio, mísero e alquebrado demônio

            Estrebuchando na bílis de nossa raiva

            Deixai o doente partir

            Para que não mais sofra em seu leito de hospital

            Se precisar milagre, temos apenas e tão somente o Sol

            Milagre maior de todas as manhãs

O ALAMBIQUE FANTASMA e outros poemasOnde histórias criam vida. Descubra agora