Meu segundo hétero

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O meu segundo hétero foi um grande amigo da adolescência.

Fazíamos cursinho pré-vestibular juntos e ele era a única pessoa que eu conhecia e que conversava. Eu gostava dos nossos papos, ele entendia o meu humor estranho e as minhas manias, partilhávamos do mesmo gosto musical: bandas Emo, estilo Simple Plan e Paramore. Uma vez ele me disse "não sei porque gosto desses caras, eles são tão gays".

Demorei muito pra contar para ele que eu era gay. Foi depois que já tínhamos entrado em nossos respectivos cursos. Pegávamos toda tarde o ônibus para irmos para a faculdade e, na volta, a gente caminhava um ao lado do outro, pois a avó dele morava na mesma rua que a minha e precisávamos de companhia para não sermos assaltados. Eu prezava muito os momentos que passávamos juntos, as nossas conversas eram sempre muito inteligentes e engraçadas. Adorava como ele ria do meu jeito de criticar as coisas (sempre gostei de criticar tudo, esse sempre foi o meu pior defeito).

Em uma noite, descemos do ônibus em um local diferente, no centro da nossa pacata cidade. Estava tendo uma grande festa pública com bandas de forró. Eu odiava o gênero, mas já estava bebaço pelas cachaças que tinha tomado no bar que fica fora da universidade. Ele que me convidou para acompanhá-lo. "Você precisa sair mais de casa, como vai saber o que é a vida se nunca se arriscar a viver?", essa frase dele ecoou em mim durante muitos anos ainda, mesmo depois que deixamos de nos falar.

E tudo aconteceu naquela noite.

Depois de ir até a casa de um amigo dele conseguir mais bebida e de ter perdido a minha mochila com o meu cadernos de anotação e um livro da Agatha Christie que peguei emprestado com uma colega de classe, descemos para perto da lagoa, onde ficava o calçadão recém construído pelo nosso digníssimo prefeito, obra que alterou boa parte da encosta, destruindo toda a beleza do nosso poluído cartão postal. O cheiro de água suja sempre era muito forte. Estávamos lá, só eu e ele, as estrelas e a lua... e eu contei. Disse que era gay e que não sabia bem como ia viver a partir dali. Me sentia confuso e perdido... Ele me ouviu falar por mais de 20 minutos e depois disse que não importava, que nossa amizade jamais iria mudar depois daquilo e agradeceu por eu ter confiado nele.

Como eu fui idiota.

Fomos para a minha casa, porque a dele era muito longe e não queria acordar a avó as 5 da manhã depois de uma festa. Chamei a minha mãe e fomos para o meu quarto. Minha cama ficou embaixo da sua rede e o vi acordado ali bem perto de mim. Foi quando, por impulso, de dirigi até ele... só de cueca. Nunca tinha tido um contato romântico com outro cara, mas queria... ah como eu queria! Só não era para ter sido assim e nem com ele! Deitei-me ao seu lado e senti o seu pau duro pular por cima do short. Ele me queria também, mas não era o momento. Não devia ser. Foi muito constrangedor quando ele me rejeitou. E ficamos lá de mãos dadas por algum tempo, até que desisti e voltei para a minha cama.

O desgraçado pulou a janela do meu quarto logo depois e foi embora. Sem se despedir, sem nada! Eu fiquei me acabando de rir em cima da cama. Foi a situação mais embaraçosa que tinha vivido até então.

No outro dia ele me viu de longe. Estava conversando com uns amigos, os mesmos da noite anterior e olhou assustado bem dentro dos meus olhos. Eu sabia que falavam de mim, porém não me importava. Já estava de boa com as pessoas comentando sobre minha sexualidade. Não disse "oi", nem outra palavra. Saiba que nossa amizade tinha morrido e eu a havia matado, ou melhor, o meu tesão.

Ainda mandei um SMS, dois dias depois do ocorrido pedindo desculpas. Ele não respondeu... e nunca mais nos falamos.

Conflitos Internos da Cabeça de um HomossexualOnde histórias criam vida. Descubra agora