Gosto de pensar que a vida usa alguma formula ainda não encontrada pelos cientistas para nos avisar quando nossa hora chega, pois, a simples ideia de não ter a chance de me despedir de todos aqueles que amo me assusta.
Acredito que esses pensamentos malucos venham graças a minha origem, sabe como é, mãe e pai guerreiros das fronteiras da Coréia do Sul, uma grande guerra veio e com ela a morte do meu pai dando fim a minha família, ou ao menos a maior parte dela, pois apesar de mamãe ter se tornado meu maior refugio e amor, a vida para mim começava e terminava no sorriso e no aconchego de meu pai.
Caminho entre os jovens da minha idade e tento balançar o corpo no mesmo ritmo estranho e desengonçado dos demais, mas a verdade é que nada que eu tentasse fazer poderia tirar meu rotulo de estranha.
- Young!
Ouço meu nome ser chamado e me viro em direção a uma loira pretensiosa que me encara de forma ardilosa, reviro os olhos para Kat e me escoro na parede branca atrás de mim.
- Onde você estava indo, mocinha? – indaga-me rindo. Kat para ao meu lado e tem dificuldades em se equilibrar em seus saltos, seguro de leve seu cotovelo e arqueio minhas sobrancelhas para a mesma.
- Para casa, local seguro e sem barulhos – digo, franzindo o cenho ao vê-la virar seu copo de bebida.
- E extremante chato – diz, fazendo careta ao jogar o copo de plástico no chão – Qual é baby girl, você sabe que sua mãe estará pintando um dos quadros loucos dela e para não ficar sozinha ela irá te comprar fazendo aquele chocolate quente estranho dela, ou seja, você irá passar a madrugada do seu aniversario no sofá verde musgo da sua mãe.
Reflito sobre sua fala e concluo com facilidade que ela esta absolutamente correta, no entanto o que posso dizer? Festas simplesmente não são o meu forte. Abro a boca para lhe responder e sou interrompida pela mesma que aponta em direção ao imenso balcão de bebidas.
Viro-me na direção que a mesma me mostra já sabendo o que irei encontrar: Jacob Sullivan, o ex-capitão do nosso antigo colégio. De primeiro ninguém imaginou que o cara iria aparecer, quer dizer, espera-se que o time do capitão seja aquele que da inicio a toda a bebedeira na festa do primeiro encontro de formandos, mas com a agenda lotada de Jacob agora que o mesmo era um tipo de estrela famosa do futebol, ninguém esperava vê-lo ali.
- É eu notei a movimentação perto da entrada mais cedo, imaginei que poderia ser ele – digo, com desdém voltando a olhá-la. Kat olha-me com espanto e apenas dou de ombros para ela.
- Nós estamos falando do Jacob, o mesmo com quem você perdeu a sua preciosa virgindade e chorou depois por 14 horas – diz.
Mordo os lábios desapontada ao lembrar-me do fatídico dia em que me tornei apenas mais uma na imensa lista de Jacob Sullivan. O fato era que eu nunca havia sido boa em lidar com datas marcantes, e, digamos que no dia em que entreguei minha mais bela flor ao maior otário do colégio – que mantém consigo uma bela arma de ação – do outro lado do mundo alguém que eu nunca mais voltaria a ver comemorava 18 anos.
- Young! – grita Kat, estralando seus dedos rodeados de anéis de esmeralda. Olho para a mesma e dou meu sorriso de desculpas, vejo seus lábios se moverem, mas sou mais rápida dando-lhe um beijo em sua bochecha rosada.
- Obrigada por tudo, você é maravilhosa, mas eu tenho que ir, acho que já cumpri meu papel de jovem desinteressada e desgarrada por hoje – digo, afastando-me de sua figura vestida de rosa.
- Young Wilson, jamais diga que você é uma desgarrada, você tem a mim – diz brava, sorriu para ela e faço o sinal de um coração para a mesma atravessando meu polegar com meu indicador, vejo a mesma sorrir com seus olhos pequenos pela bebida, um segundo depois Kat imita meu gesto.
Contente por estar há poucos passos da minha liberdade auditiva e espiritual procuro nos bolsos de meu casaco de verão meus fones juntamente com meu celular, assusto-me ao notar as horas e estranho não ter recebido nenhuma mensagem de mamãe, no entanto ignoro os dois fatos e continuo meu caminho saindo da casa do anfitrião e andando pela calçada deserta que me guia até minha casa.
Apesar de estar na America há seis anos, a maioria de seus costumes para mim continuavam sendo repulsivos ou apenas ridículos, algo que durante a escola havia sido difícil de esconder, já que a sinceridade – que aqui chamam de arrogância – era uma de minhas muitas qualidades, por essa razão, após uma breve conversa havíamos – e com isso quero dizer eu e mamãe – decidido que uma faculdade online seria o melhor para mim.
O que eu não esperava era me tornar um completa reclusa, já que meu único contato na faculdade era com meus diversos professores, de inicio havia sido um tremendo baque, mas acabou transformando-se em uma completa dádiva, pois enfim eu havia conquistado minha paz não tendo mais que fingir 24 horas ser Young Wilson, quando na verdade eu era apenas Young Park, filha do ex-comandante do Rei da Máfia da Coréia do Sul.
Desconecto meu fone do meu celular e subo correndo os poucos degraus em frente ao meu prédio, bato de leve na pequena janelinha que me permite ver Lorenzo, nosso porteiro italiano, porém o mesmo mantém-se deitado sob seus braços, solto uma risada nasalada e me encaminho em direção às escadas.
Para muitos cinco lances de escada poderia vim a ser a falência, para mim era o único "treinamento" que mamãe havia permitido após nossa saída de Seul. Na Coréia, mas especificamente na do Sul, os filhos dos comandantes herdavam o cargo de seus pais quando os mesmos se aposentavam, honra a qual sempre quis ter, mas que infelizmente jamais terei.
Empurro a porta que da acesso ao meu andar e antes que a mesma se feche atrás de mim estanco em meu lugar. A porta de minha casa esta fechada, o silêncio é o mesmo de sempre, mas a pequena luz que a todo tempo se mantém acessa esta, pela primeira vez em seis anos, apagada.
Respiro fundo, sei que esse é o sinal, para muitos seria apenas uma lâmpada queimada, para mim, era o claro sinal de que a casa havia caído e estávamos de fato em apuros. Engulo em seco e analiso minhas opções, eu havia sido descuidada e meus passos haviam sido barulhentos por todo o trajeto até aqui, além do mais eu havia ignorando a súbita sonolência de Lorenzo, nosso porteiro que havia conseguido o emprego justamente por ser o famoso "morcego".
Era fato que no instante em que eu virasse as costas a porta de minha casa se abriria e dela sairia apenas os melhores de Seul, os mesmos que nos perseguia há seis anos e agora teria a honra de nos levar de volta de onde jamais deveríamos ter saído, ao menos não com vida.
Escolhendo o caminho mais fácil, porém nem de longe o melhor deixo a porta detrás de mim se fechar com um baque que estremece toda a parede, a passos firmes caminho em direção a porta de minha casa, empurro a mesma que se abre para mim com facilidade, as luzes dos variados abajures da sala estão acessos e dando-me a visão de um homem grande cercado por demais soldados, ele se vira para mim e engulo o suspiro de surpresa.
- Young – saúda-me sorrindo de lado – Quanto tempo.
- Nam- Joo – digo mantendo-me firme, fecho minhas unhas fincando as mesmas na pela macia de minhas mãos, uma tentativa falha de não estremecer ao ver minha mãe amarrada em uma de nossas cadeiras de madeira favorita.
Ela pisca para mim, como sempre faz quando chego em casa, sorriu de lado e desvio meus olhos ate Nam-Joo que caminha a passos lentos até mim.
- Fico feliz em te ver, temos uma mensagem para você – diz, parando a minha frente.
Respiro fundo e sorriu para o mesmo – Bem, eu mal posso esperar para ouvi-lá.
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Borders of Love
FanfictionSeis anos haviam se passado, e por breves instantes de loucura e insanidade completa eu havia pensado que nossos anos de fuga iriam se encerrar, porém o que dizem sobre uma única noite ter o poder de mudar toda sua vida é a mais pura verdade. Não es...