Capítulo IV ● Youngjae

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A pessoa que evitou minha queda tinha cheiro de flores e de tardes quentes de verão, e me parecia brilhante, mesmo que eu não pudesse vê-la. Ela me segurou firme, como se estivesse segurando o próprio mundo em suas mãos, e murmurou palavras suaves e doces quando comecei a chorar por culpa do medo. Ela tinha uma voz carinhosa e acolhedora, e claramente entendia sobre coisas tristes, quando ela me abraçou, por um instante senti que minha mãe estava ali de volta, e quase que instantaneamente me esqueci do medo.

Meu pai chegou alguns segundos depois de eu ter caido nos braços dela, eu estava mais calmo, e quando ele escorregou na nossa frente eu ri um pouquinho com o barulho de sua queda, e a moça que ainda me abraçava, calmamente riu junto comigo, uma risada que tinha o som melodioso, como os guizos das renas do papai noel, e aquela risada esqueceu meu coração que estava tão triste, porque me lembrava a de minha mãe também.

Mais tarde meu pai e eu descobrimos que ela se chamava SonHee, depois de meu pai meio que ter intimado ela a tomar um café conosco na cafeteria do outro lado da rua, como forma de agradecimento por ela não ter me deixado morrer e um pedido de desculpas por eu ter caído em cima dela. E ela riu quando me desculpei, disse que não tinha problemas, contou que morava sozinha em uma casa a alguns quarteirões de distância do rinque, ao lado de uma livraria e uma floricultura, e tinha um vizinho que tinha um cachorro pequeno que parecia uma pulga, e que esse cachorro sempre pulava nela quando a via na rua, então ela estava acostumada com seres caindo em cima de si.

Eu expliquei que fazia 4 anos que eu não patinava, porque era uma coisa minha e de minha mãe e tinha se tornado doloroso depois que ela se foi. Também expliquei que meu pai não era muito bom nisso, e ela entendeu a minha queda e riu de como meu pai era desajeitado, ele riu de si mesmo também. Nós não falamos sobre minha mãe, ou sobre a morte dela, nem sobre como ainda era difícil lidar com tudo, mesmo depois de tanto tempo. Também não falamos sobre o fato de eu ser cego, nem como era difícil essa parte também. Nós falamos apenas sobre meu aniversário, contamos que essa era minha forma de comemorar ele, e quando ela ficou sabendo disso se levantou da mesa na mesma hora e comprou uma pequena torta de chocolate para comemorarmos os três, era minha torta preferida, e sem saber, foi assim que surgiu meu novo ritual de aniversário. 

Diferente do que pensávamos, nós não perdemos o contato com SonHee depois disso, muito pelo contrário, quando me dei conta, ela sempre era convidada para os jantares em familia, que antes eram apenas entre eu e meu pai, mas agora não eram mais, e para os fins de semana da vizinhança, quando fazíamos churrasco com os vizinhos e eu brincava na rua com as crianças do bairro, correndo de baixo do céu azul e das nuvens branquinhas, rindo feliz e livre, como a criança que eu era.

Conhecemos mais sobre ela com o tempo, sobre o filho que ela tinha, que era um ano mais velho que eu e morava com o pai. Sobre o divórcio que ela teve que fazer e a causa dele, e ela ficou triste quando falou sobre esses fatos, senti na voz dela, mas não pude fazer nada para impedir, pois logo ela mudou de assunto e contou mais historias engraçadas da família estranha que ela tinha, e foi ai que eu percebi o tipo de pessoa que ela era, aquele tipo que segura o mundo dos outros nas mãos, enquanto deixa o dela própria cair.

SonHee nunca tocou no assunto sobre minha cegueira ou sobre minha mãe, foi eu quem explicou primeiro, e ela não sentiu pena, como todo mundo sentia, apenas me abraçou e disse que eu era um menino muito forte, e que minha mãe tinha orgulho de mim onde quer que estivesse, e eu senti que ela falava a verdade, que ela realmente acreditava nisso, e esse fato me fez gostar mais dela como pessoa.

Depois de um tempo ela começou a acompanhar meu pai nos meus concertos de piano e nas apresentações da escola, e lentamente foi criando laços e um espaço no meu coração e no coração de meu progenitor. Logo sua ausência era notada quando ela faltava em algum churrasco de fim de semana, ou quando não ia para um dos jantares em família entre eu e meu pai. Aos poucos SonHee construiu um espaço na vida de todos os que me rodeavam, e na minha vida também, e eu sabia que se ela fosse embora um dia eu sofreria muito com isso, e meu pai mais ainda.

Mas ela nunca foi, graças a Deus.

Um dia, sem mais nem menos, meu pai sentou comigo na sala de casa e me disse que teria um encontro com alguém, e acho que ele pensou que eu ficaria assustado e odiaria esse fato, mas eu apenas disse para ele usar camisinha, porque eu não queria um irmão ainda, e que eu sabia que a tal pessoa era a SonHee. Isso fez ele rir, mais de alívio do que qualquer outra coisa, e ligar a TV para assistirmos Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, porque esse era nosso filme preferido do Harry Potter, e porque isso me deixava relaxado quando algo na minha vida mudava. 

O que era pra ser apenas um encontro se tornou dois, depois três e quatro, e quando eles estavam chegando no sexto encontro perceberam que não teria mais volta, então decidiram começarar a namorar, o primeiro relacionamento do meu pai desde que perdeu minha mãe, e o primeiro relancionamento de SonHee desde que se separarou, e eles estavam felizes, muito felizes, por esse motivo eu estava feliz também.

O relacionamento de semanas virou meses, depois anos, e no aniversário de 3 anos de namoro meu pai pediu ela em casamento, no rinque de patinação onde eles se viram pela primeira vez, e eu ajudei ele a preparar tudo. No fim da noite ela aceitou o pedido, é claro, e meses depois eles se casaram em um bosque florido, perto de uma cachoeira, e eu levei as alianças. E mesmo que SonHee tenha ficado triste pelo filho não ter ido no casamento, foi um lindo dia, eu podia ver na voz das pessoas.

Fui para a lua de mel com eles, no Havaí, eu estava com 14 anos e podia ficar sozinho em casa, sabia me virar, mas eles me queriam lá também, disseram que não seria completo se eu não estivesse, então eu fui. Foi uma viagem agradável, ouvi o mar pela primeira vez naquele ano e senti as ondas tocando meus pés e a brisa salgada batendo em meu rosto e balançando meus cabelos pela primeira vez na vida, dias inesquecíveis, tanto para mim, quanto para meu pai e SonHee.

Quando voltamos da viagem SonHee se mudou para minha casa oficialmente. Antes ela vinha e dormia aqui, porém, sempre ia embora pela manhã, o que era triste, eu gostava de ter ela em casa. Por isso, fiquei feliz com a ideia de ter ela sempre por perto, porque agora não seria mais tão silencioso, e porque eu teria alguém com quem conversar quando meu pai estivesse trabalhando, esse último era a melhor parte, não ficar mais sozinho.

Depois que SonHee se mudou nós criamos nossa nova rotina, eu acordava e ela estava na cozinha preparando o café, meu pai descia e nós tomavamos o café todos juntos, então ele ia trabalhar. SonHee me levava pra escola e depois ia para o trabalho dela, e quando eu chegava em casa ela já estava me esperando para conversar sobre nosso dia, e depois de muito tempo eu sentia que tudo ficaria bem, e realmente ficou, até os dias de hoje.

Blind • 2Jae (HIATUS) Onde histórias criam vida. Descubra agora